Declarações recentes da provedora da Santa Casa, Nanete Walti de Lima, provocaram críticas do vereador Paulo Sérgio Medeiros Borges (PC do B). Na reunião legislativa de terça-feira, 16, ele falou que o hospital tem “problemas crônicos” e que precisa ser “melhor administrado”.
Em reportagem publicada por O Progresso no domingo, 14, Nanete declara que “tem um momento de conversa fiada”, respondendo a afirmações de vereadores de que o hospital estaria enfrentando problemas relacionados à falta de medicamentos e materiais de uso médico.
Durante a “palavra livre” da sessão de terça, Paulo Borges afirmou que as declarações da provedora foram dirigidas a ele. “Quando a provedora diz que ‘tem um monte de conversa fiada’ e que alguns vereadores estão fazendo críticas, eu vesti a carapuça totalmente. É para mim esse negócio”, declarou o vereador.
Médico que atua na Santa Casa, o vereador já havia falado do hospital em outras sessões. Nesta semana, disse que não se trata exatamente de críticas ao hospital.
“São constatações de uma pessoa que trabalha lá há quase 30 anos, e está lá duas ou três vezes por dia. Então, eu sei mais ou menos o que acontece”.
Segundo Borges, ao apontar eventuais problemas, ele não pretende atacar a atual provedora, que, para ele, é “uma mera funcionária que está lá para administrar”.
“Não estou dizendo que a Santa Casa está falida, que está deixando de atender pacientes ou que tem que ser fechada. Estou dizendo que a Santa Casa precisa ser melhor administrada”.
O vereador ressaltou a importância do hospital para a cidade e lembrou que é nele onde todos os tatuianos recebem o primeiro atendimento, independentemente da gravidade do problema que apresentam.
“Sempre dou o exemplo do pai do Ayrton Senna, que quebrou a perna quando eles estavam construindo a fazenda em Tatuí. O pai do Ayrton Senna foi atendido na nossa Santa Casa e, depois dos primeiros cuidados, foi levado a um lugar mais conveniente, em um hospital na cidade dele”, afirmou Borges.
O parlamentar sustentou a afirmação de que o hospital sofre com falta de medicamentos e materiais, e citou fatos que, segundo ele, envolveram pacientes internados recentemente.
“Um paciente meu estava tomando determinado antibiótico e, no meio do tratamento, veio uma notícia da farmácia, dizendo que não tinha mais. O paciente não deixou de ser atendido, porque saíram correndo e compraram”, relatou.
Ele também citou caso de falta de luvas de procedimentos na UTI (unidade de terapia intensiva). O material é utilizado pelos funcionários para aplicar curativos e dar banho nos pacientes. “Foram pedir emprestado no pronto-socorro, e resolveu o problema. Conseguiram, mas não tinha”, afirmou o vereador.
Conforme ele, a UTI também teve falta de fita de dextro, material que serve para auferir níveis de glicemia. “Algum paciente morreu por causa disso? Não. Fizeram os testes porque acharam uma caixa sobrando no pronto-socorro”.
Além disso, conforme o vereador, o hospital está há dez dias sem aparelho de eletrocardiograma, exigindo o empréstimo de equipamento pertencente ao pronto-socorro. Também segundo apontou, há 15 dias, cirurgias de menor urgência teriam sido canceladas por falta de material adequado.
“Então, não é que está faltando ou que as pessoas estão deixando de ser atendidas. Elas são atendidas. Só que são atendidas de uma maneira precária”, afirmou. “Só porque eu trabalho na Santa Casa, eu não posso simplesmente dizer que está uma maravilha, quando eu sei que não está”, completou.
Na avaliação de Borges, a Santa Casa funciona “relativamente bem” porque tem um corpo clínico “bom” e um corpo de funcionários que ele considera “muito bom”. “São eles que tocam aquilo lá. Quem anda todos os dias na Santa Casa pode avaliar o que eu estou dizendo”.
A sugestão do parlamentar é reunir lideranças políticas, empresariais e sociais da cidade em torno dos problemas da Santa Casa. Segundo ele, há “uma necessidade absoluta” de que isso seja feito. “A Santa Casa não vai fechar. Mas poderia atender melhor, com mais qualidade, mais segurança”, finalizou.
Procurada pela reportagem, a provedora informou que não recebeu nenhum comunicado oficial de funcionários sobre falta de medicamentos ou materiais nos estoques do hospital. Segundo ela, a comunicação por escrito é o procedimento correto para casos em que há problema.
A provedora explicou que o hospital vem adotando políticas que sugerem estoque menor na farmácia. Segundo o vice-provedor e diretor administrativo do hospital, Antonio Marcos de Abreu, “os cursos de gestão hospitalar ensinam que é melhor trabalhar apenas com estoques de segurança”.
“Hoje, nós temos uma logística muito fácil. Por outro lado, não podemos deixar um capital de giro parado em um estoque alto, porque isso gera custos para o hospital. Assim, entendemos que não há necessidade de manter um estoque alto”, afirmou Abreu.
De acordo com ele, o volume do estoque de segurança da Santa Casa é calculado por um farmacêutico. O funcionário realiza o reabastecimento, semanalmente, com base nos registros de consumo. “O prazo de validade do medicamento pode vencer se ficar tempo demais no estoque”, ressaltou Nanete.
Conforme a provedora, situações em que o consumo médio é ultrapassado são solucionadas com compras emergenciais. “Se acontece de um médico receitar um remédio que não é usado normalmente, a gente corre e compra na hora. Mas, no mais, a gente tem supridas as necessidades do dia a dia do hospital”.
Entretanto, segundo a provedoria, há recomendação para que os médicos receitem apenas variações de medicamentos que estão no estoque do hospital.
“Como todos os hospitais, nós temos uma padronização de medicamentos. Se fugir desta padronização, nós vamos correr atrás para não deixar faltar. Só que o ideal é que siga a padronização”, acentuou Abreu.
Como exemplo, ele citou a prescrição de antibióticos. “Nós não temos um. Nós temos vários tipos de antibiótico. Os médicos têm que trabalhar com aquilo que há no hospital, porque, com o nosso estoque, nós conseguimos atender a todas as patologias e doenças”, afirmou o diretor administrativo.
Para utilizar remédios diferentes do padrão, o médico precisa apresentar justificativa técnica por escrito. De acordo com o diretor administrativo, é comum médicos pedirem remédios “diferentes”, alegando ineficiência dos tipos que constam na lista da padronização. No entanto, a prática poderiam gerar problemas ao profissional.
“Todas as medicações que se encontram no hospital são autorizadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Se o médico reclama que o remédio não faz efeito, tem que fazer isso por escrito, e nós vamos mandar para a agência, porque ela autorizou. Ela vai ter que tomar providências com o fabricante”, declarou.
Abreu também sustentou que a provedoria não recebeu comunicados sobre problemas com aparelho de eletrocardiograma. Segundo ele, na quinta-feira, 18, as duas máquinas do hospital estavam funcionando normalmente.
Em relação às cirurgias canceladas, a provedora informou que, recentemente, houve acordo da Santa Casa para cancelamento de alguns procedimentos, enquanto são construídas três novas salas de ambulatório no espaço da antiga maternidade.
“Cancelamos temporariamente as cirurgias eletivas, que são pequenas operações que podem ser feitas no ambulatório. Mas os pacientes foram avisados sobre isso”, afirmou ela.
Segundo Nanete, durante as obras, o bloco cirúrgico permaneceu funcionando normalmente. O prazo para a conclusão do ambulatório é o início de novembro.
Superávit
Na Câmara, Borges falou também sobre a situação financeira da Santa Casa. De acordo com ele, há alguns meses, o hospital divulgou superávit de R$ 1,5 milhão. A informação estaria documentada.
“Em uma instituição que tem um superávit de R$ 1,5 milhão, alguma coisa deve estar acontecendo para haver estas situações que acabei de citar. Tem algo que precisa ser averiguado”.
Segundo Abreu, o número refere-se exclusivamente à administração posterior a 2009. Naquele ano, o hospital registrou superávit de R$ 505 mil. Um ano depois, o saldo aumentou para R$ 671 mil. Em 2011, a cifra ficou em R$ 307 mil.
“Só que, antes disso, a Santa Casa registrava saldos negativos consecutivamente”, disse o diretor. Segundo ele, o último ano com fechamento “no azul” havia sido 2000.
Abreu informou que a Santa Casa ainda possui aproximadamente R$ 11 milhões em dívidas renegociadas. O gasto mensal com débitos antigos é de R$ 150 mil e o prazo para quitá-lo, de dez anos.
“Mesmo terminando os três últimos anos ‘no azul’, não significa que este dinheiro que sobrou está disponível. Na verdade, fechamos estes três anos sem fazer novas dívidas e baixamos a dívida antiga”, concluiu.
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