domingo, 2 de dezembro de 2012

Polícia Civil prende suspeitos de “chacinar” família com incêndio


A Polícia Civil anunciou na tarde de sexta-feira, 30 de novembro, a prisão de duas pessoas acusadas de terem matado e ateado fogo nos corpos de uma família, no bairro Enxovia do Meio. O crime ocorreu na noite do dia 24, sábado da semana passada, tendo sido considerado totalmente esclarecido no dia 29.
Na data, o delegado responsável pelo caso, José Alexandre Garcia Andreucci, solicitou à Justiça as prisões de Antônio Carlos Silva Souza, 37, e do irmão dele, Marcelo Silva Souza, 25, apontados como principais suspeitos.
Conforme o delegado, os dois teriam assassinado Mauro de Camargo, 55, a esposa dele, Cleusa Mariano de Oliveira, 49, e a filha do casal, Camila de Oliveira Camargo, 19.
Laudos da perícia técnica do IML (Instituto Médico Legal) apontam que Mauro teria sido esfaqueado até a morte. Antes, a polícia suspeita que ele teria sido obrigado a assistir a mulher e a filha serem violentadas.
Andreucci chegou a essas conclusões com base nas provas coletadas pelos peritos no local e em 22 depoimentos prestados por testemunhas em cinco dias de diligências. As investigações tiveram início ainda na noite de sábado, ficando a cargo do GTO (Grupo Tático Operacional).
Os investigadores chegaram ao local do crime depois de terem sido acionados pela Polícia Militar e pelo Corpo de Bombeiros. As duas corporações receberam chamado de vizinhos do sítio Santa Joana por volta das 22h do sábado.
“Ao chegar ao local, a PM deparou com o sítio totalmente destruído pelas chamas”, disse Andreucci. No interior da casa, estavam os corpos do pai, mãe e filha.
Conforme o delegado, as vítimas só foram localizadas depois que o Corpo de Bombeiros conseguiu controlar as chamas – o que levou cerca de uma hora.
Mauro, Cleusa e Camila estavam carbonizados. Um veículo Gol, branco, pertencente ao pai e que estava fora da casa, também havia sido destruído pelo fogo.
A Polícia Civil começou a investigar o caso como incêndio suspeito. Andreucci recebeu apoio do delegado assistente Emanuel dos Santos Françani, que ajudou no trabalho de apuração. “De pronto, nós entendemos que estava muito mal contada a história do incêndio”, comentou o delegado titular.
Os policiais civis desconfiaram do fato de o incêndio ter atingido a casa da família e apenas um dos carros que estavam no quintal. Segundo Andreucci, o único veículo atingido estava distante da propriedade. Outros dois automóveis, um Fusca e outro Gol, estavam próximos do imóvel, mas não se incendiaram.
“Não fazia sentido o fogo ter ‘pulado’ dois carros para atingir o outro”, citou o delegado. De acordo com ele, ainda que suspeito, o incêndio poderia ter sido causado por acidente. “As nossas possibilidades eram de acidente, incêndio natural (raio, curto-circuito na fiação elétrica, etc.), ou crime doloso”.
Por essa razão, a PC passou a ouvir vizinhos e demais familiares das vítimas. “Existia a possibilidade de as pessoas terem sido mortas e de terem ateado fogo na propriedade, até para destruição de provas ou por vingança”.
O laudo pericial descartou as hipóteses de acidente ou causa natural, apontando que o incêndio teria sido criminoso. Já o exame necroscópico confirmou a suspeita de homicídio. Segundo Andreucci, apesar de as vítimas estarem “altamente queimadas”, os peritos conseguiram apurar que elas haviam sido assassinadas.
Mauro apresentou marcas de facadas pelo corpo. A esposa dele e a filha tinham sinais de estrangulamento no pescoço e de espancamento (hematomas) pelo corpo. “Foi detectado que tanto a mãe como a filha, antes de serem mortas, foram violentadas, com sexo vaginal e anal”, informou o delegado.
A Polícia Civil trata o crime como chacina “altamente violenta”. A brutalidade e a frieza dos autores chocou até mesmo as autoridades. O próprio delegado chegou a se emocionar ao dar detalhes do crime.
Segundo ele, Antônio e Marcelo teriam colocado fogo na residência da família para esconder os vestígios e, no automóvel do proprietário, como motivo de vingança.
Justamente o veículo teria originado os homicídios. As investigações apontaram que o Gol branco teria sido negociado por Mauro. A vítima havia vendido o veículo para Antônio. “O problema é que o Mauro havia falado que a documentação estava em ordem, mas não estava”, disse Andreucci.
De acordo com o delegado, o acusado queria devolver o veículo e reaver o dinheiro. O problema era que Mauro não estaria disposto a desfazer o negócio. O desentendimento entre comprador e vendedor teria se acirrado na semana anterior à chacina.
No dia 16 de novembro, Mauro teria saído do distrito de Maristela, na cidade de Laranjal Paulista, para vir a Tatuí. Andreucci explicou que ele estaria disposto a resolver a pendência, mas não teria conseguido entrar em acordo.
Uma semana depois, ele teria voltado a Tatuí. Na ocasião, teria trazido o irmão mais novo, que é suspeito de ter participação e deve ser indiciado como coautor.
Depois de terem praticado o crime e ateado fogo, os dois teriam voltado para Maristela. Eles, porém, teriam levado o veículo da filha do casal, que trabalhava como monitora em uma escola particular. A moça havia ido à casa dos pais porque os acompanharia a um evento que aconteceria no sábado.
A polícia acredita que, por estar descontente com o negócio, Antônio tenha se desentendido com Mauro. “Provavelmente, saiu um conflito entre eles que levou a toda essa violência exacerbada”, especulou. Como modo de “descontar” o prejuízo, os suspeitos teriam levado o veículo da monitora, um Gol marrom.
Para se vingar, Antônio teria ateado fogo no veículo que havia levado para devolver. Andreucci acredita que Marcelo, irmão mais novo dele, tenha ajudado.
“Esse é o motivo de o carro ter pegado fogo longe da casa e os outros que estavam ao lado da residência não terem sido atingidos”, comentou. Segundo ele, os incêndios da casa e do veículo foram propositais.
No início da semana, a PC recebeu informação de que o veículo da monitora havia sido encontrado em uma estrada em Cesário Lange. O município é citado pelo delegado como caminho para o distrito de Maristela, em Laranjal Paulista. O carro também foi incendiado, como tentativa de apagar provas.
“Além de eles serem homicidas, eles são estupradores e incendiários”, afirmou Andreucci. O delegado representou pela prisão dos dois após obter provas. Há, ainda, a possibilidade de uma terceira pessoa ter participado da chacina. O nome não foi divulgado pela PC, a título de não atrapalhar as investigações.
As prisões foram expedidas pela 1ª Vara Criminal da comarca de Tatuí e cumpridas no dia 29, quando Andreucci anunciou o esclarecimento do caso junto com as detenções. O delegado explicou que preferiu não revelar os dados antes de efetuar as prisões para evitar que os suspeitos pudessem fugir.
Um terceiro envolvido teria sido cercado em Tatuí. Até o fechamento desta edição (sexta-feira, 29 de novembro, 17h), ele não havia sido detido pela Polícia Civil.
“Tenho 21 anos de delegado só na cidade de Tatuí. Este é o crime mais bárbaro que eu já tive conhecimento. Eles, realmente, praticaram uma chacina. Mataram pai, mãe e filha e abusaram delas, provavelmente, na frente do pai”, disse Andreucci.
Os suspeitos prestaram depoimento ainda na sexta-feira. Eles responderão por latrocínio, estupro, destruição de provas e tentativa de destruição de cadáveres.
Para se livrar dos corpos, conforme o delegado, Antônio e Marcelo teriam “amontoado” Mauro e Cleusa na sala. “Puseram móveis, colchões e papelão em cima, encharcaram de combustível (provavelmente, gasolina) e atearam fogo”, descreveu o delegado.
Segundo ele, Camila teria sido deixada no corredor da residência. O corpo dela foi encontrado distante do dos pais, mas com sinais de violência e carbonizado.
A PC descarta a possibilidade de as vítimas terem sido queimadas ainda vivas. O laudo indica que pai, mãe e filha tinham sinais “grandes” de violência. “O que pode ser cogitado, no momento, é que eles teriam visto as violências praticadas pelos criminosos em cada um deles”, disse o delegado.
Segundo ele, Antônio e Marcelo permanecerão detidos em cadeia da região, ficando à disposição da Justiça. Eles devem ser julgados por juiz singular. O primeiro teria cometido o crime porque Mauro não estaria disposto a devolver o dinheiro.
A PC levantou que ele teria dado R$ 6.000 como entrada e mais R$ 3.000 e uma televisão de 48 polegadas como pagamento. “Esse foi o valor que as vítimas pagaram com a própria vida. Coisa de pessoa totalmente desumana”, comentou o delegado.
O desentendimento por causa do veículo teria ocorrido na transferência. A polícia informou que Antônio teve problemas ao providenciar a troca da documentação do Gol. Por esse motivo, teria ido até a casa de Mauro “tirar satisfações”.
Para o delegado, o crime contraria até mesmo “os princípios dos bandidos”. Andreucci afirmou que a conduta dos suspeitos (de violentar mãe na frente da filha e do pai, e da filha, na frente dos pais) não é aceita nem mesmo nas cadeias. “É um caso revoltante e que causa clamor público. As pessoas, ao saberem o que ocorreu, ficarão chocadas”.
As investigações encerraram-se antes de o único integrante da família vivo (cujo nome será preservado a pedido da Polícia Civil) celebrar a missa de sétimo dia pela passagem dos entes. O anúncio da prisão dos suspeitos provocou alívio no filho. Por telefone, ele conversou com a reportagem de O Progresso.
“Eu, minha esposa e meu filho estamos com o coração partido. Não tenho palavras para descrever a dor. A notícia da prisão ameniza, tira um pouquinho só do que eu estou sentindo. Ainda estou em choque, mas satisfeito porque a polícia conseguiu chegar aos acusados”, declarou o familiar.
Andreucci informou que tanto Antônio como Marcelo serão indiciados por latrocínio triplamente qualificado (por motivo torpe, fútil e de forma bruta – eles teriam levado um pertence da filha do casal). “O que eles fizeram foi muito sério. Chacina a uma família que foi violentada de todas as formas”, disse Andreucci.
Segundo ele, pesa contra Antônio o fato de que ele já tem três passagens pela polícia, sendo duas por estupro e uma por atentado violento ao pudor. O irmão dele também teria passagens anteriores e foi o primeiro a ser ouvido.
Andreucci informou, preliminarmente, que Marcelo havia dito em interrogatório que teria visto Antônio chegar em casa com o carro da filha de Mauro.
“Ele disse que o irmão apareceu com o veículo no domingo”, comentou. O suspeito teria dito, ainda, que havia ficado sabendo do crime pela televisão.
“Achando que a polícia poderia identificá-los, ele falou que eles levaram o veículo da moça até Cesário Lange, para atearem fogo”, complementou Andreucci. Eles teriam retornado até a cidade de Laranjal Paulista em um Uno.
Apesar de dizer que não teria participado do crime, o delegado deverá indiciar Marcelo como coautor. O suspeito havia dito que o irmão era violento e que não teria tido envolvimento. “Ocorre que ele deixou escapar que não quis ficar com um pertence da filha do casal, o que é suficiente para indiciá-lo”, falou o delegado.
Andreucci espera obter a confissão formal dos suspeitos para relatar o inquérito. Para ele, o esclarecimento do caso é considerado uma satisfação. “Na realidade, um crime tão bárbaro como esse, comunicar a prisão é gratificante”, encerrou.
                                                                                        oprogressodetatui.com.br

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