De que forma uma situação passa de desfavorável a favorável? Tatuí, com a experiência de inserir a informática no ensino municipal, parece estar começando obter uma resposta. O município, que, por anos, registrou (conforme alegações de empresas sediadas na cidade) falta de mão de obra qualificada, “experimenta” uma mudança no perfil do alunado. O resultado disto, segundo o professor-doutor Mauro Tomazela, é um estudante melhor preparado para ocupar as vagas de trabalho em aberto.
A Fatec (Faculdade de Tecnologia) “Professor Wilson Roberto Ribeiro de Camargo” é uma das dezenas de instituições de ensino superior que “se beneficiam” do trabalho pioneiro desenvolvido em Tatuí. O município, ao oferecer a base tecnológica para o alunado do ensino fundamental, corrige, segundo ele, uma deficiência de anos.
Ao mesmo tempo em que oferece acesso a dispositivos que elevam a qualidade de ensino, a pasta municipal, conforme Tomazela, diretor da faculdade de tecnologia tatuiana, dá subsídios para que os alunos sejam qualificados “mais rapidamente”.
“O mundo moderno está cada vez mais exigente. Cada vez mais ele exige que as pessoas tenham qualificação. Além de mais especialista, o mercado quer pessoas com conhecimento mais abrangente, mais generalista”, iniciou.
Para que essa exigência torne-se viável, Tomazela explica que as instituições de ensino passaram a “lançar mão” de ferramentas tecnológicas. “É preciso aumentar a ‘produtividade’ deste tipo de aprendizado”, adicionou.
As ferramentas tecnológicas, que em Tatuí são especificamente os laboratórios de informática, as lousas digitais e o “Lego Education” – todos oferecidos gratuitamente para os estudantes da rede municipal –, vêm, segundo Tomazela, abreviar esse tempo de “maturidade na aprendizagem”.
“Desta maneira, nós conseguimos ser mais produtivos no processo de ensino/aprendizagem”, afirmou o professor. Conforme ele, o aluno consegue aprender mais em função das facilidades que a tecnologia atualmente oferece.
Projetos como o “Lego Education”, por exemplo, implantados em Tatuí desde 2008, começam a despertar nos alunos do ensino fundamental o interesse pela atividade tecnológica. Em longo prazo, o resultado disto é a melhor formação do futuro trabalhador. “Quando a Prefeitura ensina ‘Lego’ para as crianças nas escolas, ela torna muito mais fácil para nós colocarmos o aluno aqui, na faculdade de tecnologia, na frente de um robô”, exemplifica Tomazela.
Este tipo de “trabalho de base” é realizado, na cidade, em praticamente todas as Emefs (escolas municipais de ensino fundamental), incluindo o Nebam (Núcleo de Educação Básica Municipal) “Ayrton Senna da Silva”.
A unidade, assim como a maioria das instituições municipais que oferecem ensino fundamental (do 1º ao 9º ano), também conta com as lousas digitais. Os equipamentos permitem maior interação entre o conteúdo das aulas e os estudantes. Também costumam chamar mais a atenção das crianças.
Caso da estudante Patrícia Ketelen de Oliveira Moraes, 11, da Emef “Eugênio Santos”. A menina, além das aulas convencionais, frequenta, de acordo com determinação da escola, as ministradas com uso da lousa digital.
“É sempre muito legal”, disse ela, referindo-se aos recursos que mais costumam chamar a atenção dela. Este tipo de interação, conforme Tomazela, traz como consequência uma familiarização “desde cedo” do alunado com as novas tecnologias.
No caso dos estudantes que participam do “Lego Education”, o entendimento a respeito do funcionamento de um robô, segundo o diretor da Fatec, é processado de maneira mais rápida. “Isso faz com que seja possível abreviar o tempo de agregar o conhecimento nas pessoas como um todo”, afirmou.
Para Maria Amélia Dalmatti Lima, coordenadora da Dape (Divisão de Aperfeiçoamento e Pesquisa Educacional), da Secretaria Municipal da Educação, o uso da tecnologia permite ao alunado “produzir mais”. Isto acontece porque, de acordo com ela, a Educação está “falando a língua dos alunos”.
“A classe produz mais quando você trabalha com tecnologias, porque você está falando algo que os alunos conhecem, que entendem e que gostam. Sai da monotonia daquela aula do professor lá, na frente, falando, e sendo dono da verdade”, afirmou.
A interação proporcionada pela tecnologia, conforme apontou, possibilita aos estudantes o desenvolvimento do senso crítico. Em Tatuí, esse senso está sendo desenvolvido cada vez mais cedo. Tanto que a Educação oferece, até mesmo às crianças atendidas por creches (a partir dos quatro anos de idade), o contato com a tecnologia.
“Isto cria alunos mais conscientes, mais abertos para o ensino superior”, declarou Tomazela. A partir daí, a opção pelo ensino tecnológico (a segunda etapa na formação e, portanto, para a qualificação da mão de obra) tende a ser mais natural. No município, além das instituições particulares e da Fatec, cursos na área tecnológica são oferecidos pela Etec (Escola Técnica) “Salles Gomes”.
A opção pela continuidade dos estudos, que está se tornando “um caminho natural” para os tatuianos, é uma das consequências geradas pela inclusão da informatização no ensino. Outra é a própria adaptação que as unidades educacionais têm de promover para conseguir acompanhar o ritmo do novo alunado. “Um exemplo clássico disto, que eu conheço da experiência profissional, é que, até pouco tempo, ensinávamos desenho na prancheta. Agora, não mais”, disse Tomazela.
As tábuas utilizadas para desenho foram, aos poucos, sendo substituídas por “softwares” (programas de computador) como o AutoCAD e demais ferramentas de CAD (“computer aided design” – desenho auxiliado por computador) e de engenharia por computador.
A alteração está ligada, conforme Tomazela, ao novo perfil do alunado. Os primeiros alunos da unidade tatuiana precisavam, antes de utilizar estas ferramentas, de capacitação para trabalhar com computador. “Demorou um certo tempo para que nós conseguíssemos abolir, de vez, as pranchetas”, lembra o diretor da Fatec.
O panorama atual, segundo ele, mudou. Isto porque o alunado que passou a frequentar a instituição recebeu, no ensino fundamental, a base oferecida pela municipalidade. “Não temos mais dificuldades porque todo mundo lá atrás (os alunos) teve contato com essas novas tecnologias”, destacou Tomazela. “O aluno chega aqui, para a gente, muito mais preparado. Fica mais fácil ensinar CAD para ele, porque não vamos mais ensinar a trabalhar com o computador, uma vez que ele já sabe. Vamos ensinar a ferramenta de engenharia, a ferramenta de tecnologia”, argumentou o professor-doutor.
O preparo dos atuais alunos da instituição – a maioria oriunda de Tatuí – fez com que a Fatec abolisse as pranchetas. “Tanto é que nós estamos disponibilizando as que temos para outra unidade de ensino, porque aqui nós já informatizamos tudo”, disse.
A alteração, para Tomazela, é reflexo da “evolução” do ensino. “Ela é constante, não para nunca e está começando já no ensino fundamental”, adicionou. Para acompanhar o ritmo do novo alunado – mais preparado e familiarizado com as novas tecnologias –, a instituição tem de manter não só a estrutura, mas o corpo docente atualizado.
A “aproximação” dos estudantes com as tecnologias tem, conforme o professor, duas explicações: a primeira é que os alunos mais novos, oriundos do ensino público, já receberam uma base, que é oferecida gratuitamente pela Secretaria Municipal da Educação; a segunda é que os estudantes de uma faixa etária mais avançada já convivem com as novas tecnologias no ambiente de trabalho.
“A grande vantagem das pessoas que têm uma faixa etária maior é que, normalmente, elas já estão no mercado de trabalho e já convivem com essas ferramentas. Então, quando elas chegam aqui, também não têm dificuldades porque estão convivendo com isso. Não é novidade”, descreveu.
O uso das novas tecnologias, porém, demanda dedicação. Tomazela, por exemplo, explicou que, assim como a Dape promove capacitação voltada aos professores, a Fatec também mantém seu corpo docente atualizado.
“A cada dia, passamos a aprender com a tecnologia, porque esse conhecimento é muito mais rápido. Você aprende coisas hoje que, talvez amanhã, já não saiba se vão ser mais necessárias”, comentou o professor.
A mesma dinâmica aplica-se ao alunado. O da rede municipal de Tatuí, segundo Maria Amélia, da Dape, é direcionado a “extrair o melhor” que a informatização pode oferecer. “Sempre os estimulamos a participarem da aula de informática, por exemplo, não como uma hora que não tem importância. Tem toda importância, porque ela está amarrada com a política da escola”, disse ela.
Em Tatuí, o estímulo permite aos estudantes não só tornarem-se mais preparados para ingressar no ensino superior tecnológico, mas também fomenta novos empreendimentos. Caso das lousas interativas, produzidas pelo ex-aluno da faculdade de tecnologia tatuiana José Carlos da Cruz Júnior.
O atual mestrando desenvolveu, com o conhecimento que aperfeiçoou na instituição tatuiana, um equipamento mais barato que as lousas digitais do mercado. Alguns modelos chegam a custar mais de R$ 80 mil. O produzido pelo tatuiano varia, tendo custo aproximado de até R$ 40 mil.
Algumas das lousas interativas produzidas pelo ex-aluno fazem parte da estrutura da Fatec. O projeto rendeu a Cruz um empreendimento, que integra a Incubadora de Empresas de Tatuí, em funcionamento no complexo educacional que leva o nome do primeiro educador a cogitar a inclusão da informática no ensino da rede municipal, o professor Wilson Roberto Ribeiro de Camargo.
Pela contabilidade de Tomazela, Cruz produziu 12 unidades das lousas interativas. “Este projeto, como tantos outros de inovação tecnológica, surgiu porque os alunos já vieram com uma base aqui para a faculdade e ajudaram a fomentar este tipo de criação de inovação”, disse o diretor da Fatec de Tatuí. Neste sentido, o ensino tatuiano oferecido pela municipalidade vem estimulando não só a formação de mão de obra mais qualificada, mas o surgimento de um “novo mercado de trabalho”.
Trata-se, segundo Tomazela, de um mercado que cresce em função da apresentação, por parte dos alunos da faculdade, de soluções que “ainda não existem”. “Através da nossa incubadora, que atende cinco empresas, o município tem conhecido soluções de tecnologia que fomentam novos negócios”, disse.
Um dos novos negócios surgidos a partir da incubadora que atende empresas de base tecnológica é o da Ipetec Decisões Inteligentes, responsável pela avaliação dos dados do Censo Industrial do município. O estudo foi encomendado pela Seplan (Secretaria Municipal de Planejamento de Desenvolvimento Econômico e Habitacional), da Prefeitura.
O censo utiliza sistema desenvolvido pela Ipetec com base nas máquinas caça-níqueis cedidas à Fatec pelo Judiciário, por iniciativa do juiz Marcelo Nalesso Salmaso, da Vara do Juizado Especial Cível e Criminal da Comarca de Tatuí. “O software está disponibilizado via web ou ‘in loco’, com um terminal de consulta”, explicou Tomazela.
Para ele, o avanço registrado nas pesquisas e no desenvolvimento de novas tecnologias está diretamente relacionado à base de ensino oferecido pela Prefeitura. É este preparo – por meio dos diversos projetos e dispositivos (laboratórios de informática, lousas digitais e “Lego Education”) – que está, segundo Tomazela, ajudando a mudar o panorama da mão de obra tatuiana.
Conforme ele, a tendência, dentro dos próximos anos, é de que a falta de qualificação não seja mais considerada um problema para o município – e as indústrias sediadas nele. “A base do ensino fundamental toda, mesmo a oferecida pela iniciativa privada, vai ajudar a reverter o quadro atual (da falta de mão de obra capacitada). Só que reverter esse quadro não é um processo que acontece assim da noite para o dia. Vai demorar, vai depender da cultura e vai se modificar com o tempo”, citou.
Os formandos mais recentes, conforme o professor-doutor, são uma mostra de como o comportamento do alunado, com relação ao uso das novas tecnologias, mudou. A adaptação a que eles têm de se submeter para acompanhar o ritmo do trabalho, segundo Tomazela, está também relacionada às exigências do mercado. “Os formandos têm de acompanhar as tendências que são impostas pelo mercado. Por isto, os cursos de tecnologia têm que ser sempre flexíveis e modernizados constantemente”, argumentou.
A adaptação, conforme Tomazela, não é exclusiva do aluno, abrange, também, as instituições de ensino. A Fatec tatuiana, por exemplo, já teve de alterar a grade curricular dos cursos dela para atender às exigências do mercado.
“O nosso curso de automação industrial já passou por uma estruturação curricular. O de manutenção industrial, também, mesmo antes de formar a primeira turma”, comentou o diretor da instituição de ensino superior tecnológico.
A mesma alteração aconteceu no curso de gestão empresarial. “As necessidades do mercado vão se modificando e, por isso, temos que modificar os nossos currículos”, disse Tomazela. De acordo com ele, as alterações não significam que os já formados perderam em conteúdo. “Significa apenas que é preciso manter-se atualizado, através dos cursos de pós-graduação e da prática”, citou.
Todo este “movimento” produz profissionais disputados no mercado de trabalho. Não fosse assim, a Fatec não teria, conforme informou Tomazela, índice de empregabilidade de 95%. “O índice é geral, divulgado pelo Ceeteps (Centro Estadual de Educação Tecnológica “Paula Souza”), e realmente acontece em Tatuí”, afirmou o diretor. Grande parte deste resultado, segundo ele, deve-se ao fato de que a maioria dos alunos da instituição tatuiana já está empregada. “Alguns buscam atualização”, explicou.
Este processo, para Tomazela, não tem implicações negativas. “Pode até existir algum aspecto negativo, mas isto aí é mais na área psicológica, a qual não é possível mensurar no ensino”, disse. Os problemas decorrentes do uso da informática no ensino podem ser de ordem de atenção. “Até o momento, não se conhecem prejuízos. De forma geral, pode haver algo de negativo, mas de maneira isolada, de um ou outro aluno que não se adapte”, disse.
As alterações no método de ensino, segundo Tomazela, não representam modificações na base do conhecimento. “A base não muda. Eventualmente, surgem novas descobertas, mas que são incorporadas. O que aconteceu de uns anos para cá é que a aplicação da tecnologia nessa base de conhecimento fez com que fossem desenvolvidas novas ferramentas de ensino”, declarou o professor-doutor. Desta maneira, o aprendizado tornou-se mais dinâmico, o que impôs aos professores um desafio profissional e pessoal.
O professor, segundo Tomazela, vive em constante desafio, especialmente os que lecionam em cursos tecnológicos. “Isso acontece porque ele trabalha com um aluno que veio do ensino fundamental melhor preparado e com um aluno que já se formou em outra faculdade e está num emprego, em contato com o que o mercado de trabalho exige”, citou.
A tarefa de quem ensina, neste sentido, é superar em conhecimento quem está sentado “do outro lado da mesa”. “É importante que o professor entenda o que são esses desafios e se preparar para enfrentá-los, já que eles são constantes”, argumentou o diretor da Fatec.
Segundo ele, o alunado tatuiano – aquele que recebe a base de conhecimentos referente à tecnologia já no ensino fundamental – tem se mostrado extremamente exigente. “É uma mudança que está acontecendo com o tempo. A própria faculdade vem mudando e se adaptando em virtude do aluno que ela está recebendo. Temos, aí, uma deficiência de longa data no aluno que entra na faculdade com falta de base de conhecimento, mas, ao se trabalhar no ensino fundamental com essas novas tecnologias, vamos conseguir, ao longo do tempo, diminuir esse ‘gap’ da falta de conhecimento”.
A consequência destas ações, para Tomazela e todos os demais envolvidos no processo, é que ganha o cidadão que está melhor preparado para enfrentar o mercado de trabalho e a cidade. Resolver a questão da defasagem em relação à falta de mão de obra qualificada com a alfabetização digital é, como sugere o título desta série especial, um “desafio a ser vencido”.
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