“Ela fica muito feliz. Se sente inserida no grupo, como as outras crianças que têm um padrão normal. Ela se sente mais estimulada, amada, querida”. As palavras são da professora Marli Pereira Cardoso e definem o sentimento da pequena Mariana Gabriela, 12, aluna da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Tatuí, entidade que abriu, na segunda-feira, 9, projeto pedagógico do Sítio Santa Rosa. A estudante, portadora de paralisia cerebral e cadeirante, esteve entre as mais de cem crianças que visitaram o sítio e puderam interagir com os índios da tribo umutina.
Mariana participou do primeiro dia do intercâmbio cultural promovido pelo espaço há nove anos. Acompanhada da professora, ela conheceu um pouco dos costumes de membros da única tribo umutina do país. A aldeia é composta por, aproximadamente, 500 índios. Oito deles estão em Tatuí, participando do projeto que é aberto a alunos das redes públicas e privadas do ensino infantil e fundamental. O intercâmbio é realizado sempre em abril, mês em que se comemora o Dia do Índio.
A presença dos alunos da Apae, na abertura do projeto, conforme Elen Adriana Theotonio, diretora da instituição, é realizada desde o primeiro ano do intercâmbio. “Trata-se de uma ação muito importante. Por meio dela, os nossos alunos podem ser inseridos em atividades que acontecem com todas as escolas do município e do Estado. Para nós e para os pais deles, é muito gratificante”, declarou.
Os alunos, antes da visita, tomam um café da manhã. O roteiro do passeio é composto por três etapas, sendo a primeira a visita a uma oca, com bate-papo; a segunda, contato com zarabatana e arco e flecha; e a terceira, pintura de rosto, a cargo das índias umutinas. Para Elen, as atividades vão ao encontro da filosofia da instituição que visa à integração dos alunos com a sociedade de um modo geral. “Poder colocá-los num projeto como este é fantástico”, argumentou a diretora.
O grupo de alunos teve acompanhamento de professores, terapeutas e estagiários da entidade. Entre eles, Sérgio Ricardo Cavalcanti Orsi, que dá aulas de educação física na Apae há 15 anos. “O passeio representa não só sair do ambiente escolar e vir para o rural, onde eles aprendem várias coisas do campo, mas proporciona um contato físico que é muito bom”, descreveu.
De acordo com ele, a atividade incluiu apenas alunos do período da manhã. “Os da tarde não puderam vir por conta do horário, mas, independentemente disto, é uma oportunidade que proporciona um ganho muito grande”.
Para estimular ainda mais os alunos – e permitir que os que não puderam comparecer ao evento desfrutem da experiência de modo diferente –, a Apae trabalha com informações referentes ao projeto em salas de aula.
“Vamos expandindo bem o que eles aprenderam aqui. Nós levamos tudo o que nos foi passado para dentro do ambiente escolar, usando a informação das mais variadas formas. Isto não só na sala de aula, mas nas diversas atividades”, disse Orsi.
Trata-se, segundo Elen, de uma continuidade da experiência, para a expansão dos conhecimentos das crianças atendidas pela entidade. “A nossa equipe explica a questão do índio, da natureza, e a importância disto tudo”, falou.
Este tipo de interação promove, segundo ela, não só melhoria no contato exterior (dos alunos para com a tribo) como interior (dos alunos para com os próprios alunos). “Isto ajuda muito. Os alunos são sempre muito participativos. Mesmo dentro da escola, eles têm um grande entendimento”, disse.
Entendimento que o índio Marê Monzilar, que atende pelo nome de Márcio (usado para o contato com os “não índios”), vê como fundamental para a preservação da cultura indígena. O umutina vive em uma aldeia a 134 quilômetros de Cuiabá, no Estado do Mato Grosso.
Com 32 anos, Marê perdeu as contas de quantas vezes já participou de intercâmbios culturais. “Faço isso desde quando era aluno da escolinha da minha tribo”, comentou. Na aldeia, a única e última da tribo umutina no país, Marê teve aulas de português.
Atualmente, é professor formado pela Universidade Federal do Mato Grosso e um dos coordenadores dos projetos de intercâmbio. A interação é regulamentada pela Funai (Fundação Nacional do Índio). Todos os alunos da tribo, que integram o processo de educação infantil, participam do projeto. Os intercâmbios, segundo o índio, são uma forma de a tribo manter a cultura preservada. “Eles representam uma oportunidade de a gente divulgar nossa etnia, nossos costumes, já que, no Brasil, são poucas as pessoas que nos conhecem. Os umutinas se restringem a apenas uma aldeia”, falou.
São, aproximadamente, 500 índios vivendo na aldeia. O contato com os “não índios” permite que não só a sociedade respeite a tribo, mas que os próprios índios se reconheçam como tal. “Neste mês (abril) em que a gente ganha mais visibilidade, por conta do Dia do Índio, temos um trabalho bastante intenso de práticas culturais na escola da nossa tribo”, explicou Marê. Segundo ele, os índios em idade escolar, além de ouvir histórias dos anciões, aprendem artesanato, produzindo cestos e redes e confeccionando arcos e flechas.
Em Tatuí, oito índios apresentam (até o final do mês) a cultura umutina para alunos que participam do projeto cultural. Cada um deles tem uma participação específica nas demonstrações aos pequenos. “A minha parte é explicar a moradia. Todos os materiais aqui têm utilidade”, comentou ele, referindo-se aos objetos expostos numa oca instalada no sítio.
Este é o segundo ano de participação dos umutinas no projeto. Antes deles, o Santa Rosa recebeu as tribos xavante (por três anos) e pataxó (por quatro anos). O roteiro das apresentações é definido pela equipe do sítio em conjunto com os índios. “Cada etnia tem tradições diferentes, mas algumas coisas são básicas para todos, como o uso do arco e flecha, da zarabatana e a moradia”, disse o idealizador do intercâmbio, Flávio Medeiros.
O bate-papo entre alunos e os índios também é incluído no passeio porque independe da tribo. “Os pontos mais importantes da cultura são inseridos no projeto. Tudo dentro dos parâmetros da educação. É como se eles estivessem dentro de uma aldeia, mas aqui, em Tatuí”, disse o responsável.
Os alunos que participam do projeto conhecem, ainda, parte do artesanato das três etnias. São peças que fazem parte do acervo do sítio, acumulado ao longo dos anos.
O passeio todo conta com quatro horas de duração, incluindo o café da manhã, os pontos a serem visitados e a conversação com os índios. As crianças – média de 150 por dia – são divididas em quatro grupos. Cada grupo faz um itinerário diferente, mas passa por todas as etapas. O projeto é realizado até o fim do mês, somando três semanas. Nos anos anteriores, os índios permaneciam por um mês (quatro semanas). “Nós reduzimos o período, porque os índios não estão acostumados a trabalhar. Então, tem que ser algo prazeroso para eles”, falou.
O projeto é aberto a crianças de escolas de todo o Estado e dirigido a alunos entre quatro e dez anos de idade.
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