sábado, 3 de março de 2012

Tatuí e a ideia de tecnologia educacional



Até os dias atuais, Tatuí preserva a imagem de cidade conservadora. Trata-se de conceito que está, aos poucos, sendo derrubado. Grande parte deste novo paradigma deve-se à Educação, área responsável (e essencial) pela formação dos novos cidadãos e que iniciou, em 2005, um projeto pioneiro na região e, quiçá, no Estado de São Paulo.
A ação, denominada projeto de tecnologia educacional, incluiu, pela primeira vez na história do município, dispositivos até então nem cogitados por escolas particulares. O mais inovador deles, a lousa digital, teve apresentação em 2008. Os equipamentos – mais de 50 –, adquiridos pelo Executivo, pertencentes à Secretaria Municipal da Educação e gerenciados pela Dape (Divisão de Aperfeiçoamento e Pesquisa Educacional), representaram um “salto” no ensino do município, que já havia dado, três anos antes, os primeiros e importantes passos em direção à chamada “alfabetização digital”.
A ideia de inserir a informática na grade curricular de ensino partiu de um dos mais respeitados educadores da cidade, o falecido professor Wilson Roberto Ribeiro de Camargo. “Wilsinho”, como era conhecido, incluiu o projeto no plano de metas de Tatuí quando ocupou o cargo de secretário municipal da Educação, função que atualmente pertence à professora Marisa Aparecida Mendes Fiúsa Kodaira. “A proposta de informatização era dele e já estava prevista no PPA (Plano Plurianual)”, comentou Marisa.
O projeto começou a ser colocado em prática em 2005 e consistia, em princípio, na criação de laboratórios de informática nas unidades de ensino administradas pelo município. Naquele mesmo ano, o Executivo travava uma de suas maiores batalhas: a municipalização das escolas, processo que chegou a render protestos públicos por parte dos educadores. A reclamação era de que muitos que atuavam pelo governo do Estado (que administrava boa parte das unidades escolares da cidade) teriam dificuldades em lecionar, uma vez que precisariam se deslocar para municípios distantes para continuar no cargo.
Havia ainda outros receios, como a remuneração e a falta de plano de carreira. Temores que foram, com o passar dos meses, sendo dissipados. Wilsinho, que conduziu a municipalização e conseguiu superar a questão (os docentes cederam à proposta do Executivo após aprovação do processo pela Câmara Municipal), não chegou a ver o projeto funcionando. Os primeiros computadores foram instalados na Emef (Escola Municipal de Ensino Fundamental) “Eunice Pereira de Camargo”, após a morte do ex-secretário, que faleceu em 26 de outubro de 2005, no Instituto do Coração, em São Paulo.
Na época, a “Eunice” funcionava num dos prédios da Fatec (Faculdade de Tecnologia), inaugurada mais tarde com o nome do ex-secretário. O laboratório de informática da escola, a primeira sob responsabilidade do município a receber computadores, representou o princípio de uma ação “desbravadora”. Até então, nenhuma outra cidade da região – e do interior do Estado de São Paulo – havia se proposto a investir no uso da tecnologia como ferramenta para melhoria da Educação. Ainda em 2005, o projeto passou às mãos de Marisa. “Eu o assumi em novembro daquele mesmo ano”, lembrou.
Rapidamente, conforme a secretária, os equipamentos foram sendo “incorporados” ao ambiente escolar. Os computadores (até então, somente eles) começaram a ser utilizados pelo corpo docente “de forma pedagógica”.
“Todas as classes, dentro da carga horária da grade curricular, passaram a frequentar os laboratórios”, disse ela. O número de equipamentos saltou de 20 para cerca de 500 (quantidade estimada com base no total de escolas) em “alguns poucos anos”.
Atualmente, todas as 24 Emefs, mais o Nebam (Núcleo de Educação Básica Municipal) “Ayrton Senna da Silva”, possuem laboratório de informática. Desta maneira, o uso dos equipamentos passou a fazer parte do cotidiano escolar de crianças a partir dos seis anos de idade. “É muito emocionante ver os pequenos, a ‘mãozinha’ deles pegando no ‘mouse’ e a desenvoltura que têm com os equipamentos”, afirmou Marisa.
Pensando na expansão da iniciativa, a secretária, em conjunto com o prefeito Luiz Gonzaga Vieira de Camargo – e com apoio da Dape –, decidiu incorporar um novo dispositivo tecnológico: as lousas digitais. Elas chegaram às escolas da rede pública municipal no ano de 2008. “Foi um ganho muito grande para o município”, avaliou Marisa.
Na sequência às lousas, ainda no ano de 2008, a Educação agregou ao ensino tatuiano o “Lego Education”, projeto voltado ao desenvolvimento da robótica e da tecnologia como forma de estimular o raciocínio por meio das disciplinas de ciências exatas.
O “Lego Education” é um braço educacional da Lego Group. Criado no Brasil, em 2002, ele utiliza peças, engrenagens e motores que se encaixam, da mesma forma que os conhecidos montáveis da marca.
Os investimentos, na época em que os cofres do município estavam fragilizados – no ano de implantação do projeto, a Prefeitura possuía dívidas herdadas da administração anterior –, tornaram-se possíveis por conta da municipalização do ensino. Os recursos para as aquisições dos computadores, das lousas digitais e do “Lego Education” vieram do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação). “Fizemos uso de 40% dele (do fundo) que podem ser destinados à manutenção e compra de equipamentos”, explicou a secretária.
O Fundeb permitiu que os planos da pasta da Educação “caminhassem”, uma vez que resultaram na construção de novas unidades educacionais e no aumento do número de docentes. Por conta da municipalização – e, consequentemente, do volume de repasses em função do Fundeb –, as escolas passaram a contar com professores de informática nos quadros de colaboradores. “Atualmente, até as unidades da zona rural têm estes especialistas”, disse Marisa.
A vinda dos novos profissionais fez com que a Dape, sob coordenação de Maria Amélia Dalmatti Lima, pensasse num novo formato de ensino, considerando-se que a maioria dos professores de informática não tinha formação pedagógica.
Noutra frente, a divisão teve de “seduzir” os que estavam acostumados ao método convencional de ensino, restrito a lousa, giz e algumas xerocópias. “Os laboratórios (de informática) não existem só para ensinar a mexer nos computadores, mas para agregar conhecimento tecnológico ao ensino. É uma extensão da sala de aula comum”, falou Maria Amélia.
O novo modelo de ensino precisou ser formatado aos poucos, devido à resistência dos educadores, e disseminado em toda a rede educacional da cidade. “Isto, incluindo a zona rural”, frisou Marisa. A secretária comandou pessoalmente os trabalhos que visaram à quebra de preconceitos que pudessem existir em relação ao uso da tecnologia no aprendizado. “Nós fizemos algo importantíssimo para que isto pudesse acontecer, que é a formação do professor”, explicou a responsável pela pasta da Educação.
A aproximação dos educadores com a informatização é resultado direto do processo de capacitação, em especial no que diz respeito ao uso das lousas digitais. A consequência, segundo Marisa, é que os professores “se apropriaram”, num contexto mais amplo, dos equipamentos. Passaram a incorporá-lo ao planejamento do conteúdo do ensino. “Antes, as aulas vinham prontas. Agora, é o professor quem faz a aula dele. Ele é o responsável pelo conteúdo, e isto representa um avanço imensurável”, afirmou.
Deste ponto em diante, a partir de 2009, a Dape passou a priorizar a adaptação dos conteúdos e a deixar de lado a chamada “fábrica de aulas” – processo no qual o educador enviava os conteúdos para a empresa responsável pelo software das lousas digitais.
A tarefa está a cargo do professor de geografia Francisco Antonio Luciano de Campos, que atua na divisão e faz parte da equipe coordenada pelo professor Leonardo de Moraes. A partir do trabalho deles, os conteúdos são “descarregados” nas lousas digitais e podem ser usados até mesmo, nas creches municipais, por crianças de quatro e cinco anos de idade. Entre elas, a “Amadeu Fragnani”, na vila Santa Luzia.
O uso dos equipamentos, no caso das creches, é estritamente lúdico, mas ajuda na familiarização da criança com a tecnologia. Na vila Santa Luzia, por exemplo, os pequenos participam de um trabalho chamado “Crachá Digital”. O cartão é reconhecido pelo software da lousa digital que apresenta, em tela projetada, o primeiro nome e a fotografia da criança. “É muito emocionante vê-las, tão pequenas, já interagindo com os equipamentos. Elas nem alcançam direito a lousa e precisam subir num banquinho”, falou Marisa.
O impacto desta interação – que, a princípio, pode ser considerado simples – no ensino e no desenvolvimento da criança é imensurável. Mais do que isto, representa a primeira etapa rumo à famigerada alfabetização digital. “Hoje em dia, nós estamos cercados por uma parafernália de computadores, seja celulares, ‘tablets’, ‘notebooks’, ou mesmo a TV, que não deixa de ser um computador. A pessoa tem que estar preparada para isso, porque, senão, ficará para trás”, destacou a secretária, que já atuou como delegada de ensino. Conforme ela, a criança deve aprender a operar o computador, de “maneira consciente”.
Foi deste mesmo modo (“consciente”) que a secretaria promoveu a introdução da informática na grade curricular do ensino municipal. O projeto disparado em 2005 percorreu um “longo caminho” até se consolidar. A Educação, a título de exemplo, levou três anos para implantar laboratórios de informática em todas as unidades da rede administrada pelo Executivo. Com as lousas digitais, não foi diferente. A última “leva” de equipamentos foi adquirida no ano passado, sendo utilizada no início daquele ano letivo. “Tudo aconteceu de maneira tranquila e gradativa, até porque as escolas foram vindo, aos poucos, para o município”, afirmou Marisa.
Para administrar toda a nova infraestrutura, a pasta municipal precisou modernizar-se. Passou a integrar o “Portal Siged” (Solução Integrada de Gestão Educacional), no qual divulga ações, permite acesso ao sistema administrativo (uso interno) e mantém um canal de comunicação com os pais dos estudantes.
“Tudo é colocado nele (no portal). Lá, é possível verificar calendário, matrícula de aluno, grade curricular. É um sistema que vem sendo implantado aos poucos, porque é gerencial”, explicou a secretária municipal.
A ferramenta permite o controle do alunado que tem contato com a informática. Em Tatuí, são 9.338 estudantes do ensino fundamental e pouco mais de 2.000 crianças das creches municipais. “Todos estão sendo atingidos pela tecnologia, seja no contato com o computador, seja na interação com as lousas”, falou Marisa. Ainda neste ano, parte das mais de 11 mil crianças deve ser beneficiada com o uso de “laptops”. A primeira escola a recebê-los será a “Eunice”, atualmente sediada no bairro Jardins de Tatuí.
Os “laptops” representam a continuidade do projeto de tecnologia educacional, o qual visa, ainda, a distribuição de “tablets” para diretores, coordenadores pedagógicos e professores. Estes equipamentos, segundo adiantou Marisa, já foram adquiridos pelo município. “Só não sabemos quando virão”, afirmou a secretária.
O “tablet” vai permitir ao professor autonomia no gerenciamento do conteúdo das aulas, já que os educadores poderão preparar o programa no equipamento e incluí-lo na projeção da lousa digital. “Eu não sei como é que vamos fazer isso, mas os meninos da informática vão saber”, citou Marisa, referindo-se a Moraes e Campos, da Dape. São eles os encarregados de transformar as ideias discutidas em reuniões em “bits” e “bytes” (unidades de informação que podem ser armazenadas ou transmitidas via digital).
Esta mesma equipe é responsável pelo trabalho técnico e pedagógico que, até o momento, ainda não pode ser mensurado em índices, estatísticas ou outros indicadores como o Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) e o Saeb (Sistema Nacional de Avaliação de Educação Básica). “Ainda não existe nenhum órgão oficial que se propôs a fazer isso, mas eu acho que seria muito interessante se o MEC (Ministério da Educação) e o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) juntassem mais esse viés. Com certeza, Tatuí, seria a primeira colocada”, falou.
Apesar de diferente do modelo convencional de ensino, o processo pioneiro de alfabetização digital deflagrado em Tatuí não é “radical” a ponto de tentar reescrever o modo com que o aprendizado acontece. O uso das lousas digitais, dos “laptops” e “tablets” (estes dois últimos a serem testados), conforme Marisa, não representa o fim das aulas de caligrafia. “De jeito nenhum, tudo tem que correr em paralelo. Eu falo que nós não podemos, nunca, dispensar aquela aula na qual o professor vai contar uma história que leva o aluno a sonhar. São coisas que têm de acontecer em paralelo”.
Para a secretária, mais importante que facilitar o aprendizado, a tecnologia deve servir de mecanismo para preservar a cultura. “Nós não podemos desprezar aquilo que tem uma importância enorme e vai continuar tendo”, afirmou. O uso da computação, também segundo ela, permite a expansão da chamada inclusão digital, que é a possibilidade das pessoas – que normalmente não teriam a chance – terem contato com a informatização.
Neste contexto, os laboratórios de informática do município poderão, mais uma vez e de maneira distinta, universalizar o acesso aos meios eletrônicos, em especial a internet. Isto porque a secretaria planeja abrir os espaços para uso da comunidade, como já acontece com o PEF (Programa Escola da Família) nas unidades da pasta municipal.
A ideia, no entanto, é permitir a utilização no período noturno, para pais e familiares dos estudantes. “Gosto muito da ideia de fazer com que eles possam participar e, com isto, terem consciência da importância dos equipamentos, para que nos ajudem a conservá-los”, falou Marisa.
O conceito deve utilizar como base “o uso inteligente dos equipamentos e dos recursos tecnológicos”. As crianças, no período escolar, recebem orientações sobre quais sites podem visitar e como manter os computadores conservados.
A informática foi incluída no processo de aprendizado em Tatuí em 2006, mas entrou como disciplina, na grade curricular, em 2012, quando a secretaria mudou a carga horária. Por conta da alteração, os alunos do 1o ao 5o ano do ensino fundamental estudam um total de 23 horas semanais.
Parte deste tempo é passada nos laboratórios de informática, nos quais há revezamento de turmas. O espaço funciona como se fosse uma sala ambiente, na qual os estudantes trocam informações e aprendem por meio das telas dos softwares. “Eles (os alunos) recebem instruções em horários que são adequados, seguindo critério da direção de cada unidade de ensino”, explicou Maria Amélia. A coordenadora da Dape disse que a única regra é que o uso do espaço deve ser “democrático” – atingir todas as séries das unidades escolares.
A divisão, que existe desde 2006, tem a missão de realizar trabalhos de orientação pedagógica, voltados, em princípio, aos educadores. Outra função é promover estudos que permitam a melhoria do processo de aprendizado. O de introdução da informática no ensino é o primeiro e o maior deles. “Nossa equipe participa muito de congressos para, depois, colocar todas as novidades à disposição dos nossos coordenadores”, disse Maria Amélia.
É por este motivo que a Dape teve papel fundamental na disseminação do projeto de inclusão da informática no ensino. Ela atuou como uma espécie de “ponte” entre os educadores, os equipamentos e novos recursos tecnológicos.
As primeiras ações consistiram na apresentação dos dispositivos, como a lousa digital, e, na sequência, no treinamento dos educadores, que viram seus papéis se inverterem: passaram de professores a alunos. “A preparação aconteceu nas escolas mesmo. Nós pegávamos um grupo de professores e trabalhávamos com eles, ensinando como operar a lousa”, contou a coordenadora.
A reação dos educadores às novas tecnologias, no início, não foi das melhores, o que obrigou a Dape a adotar uma série de medidas para gerar um “convencimento”. É esta estratégia que será abordada na segunda reportagem da série especial “Alfabetização Digital: Desafio a Ser Vencido”, produzida pelo jornal O Progresso. A reportagem terá publicação no dia 11.

Twitter Facebook More