sábado, 3 de março de 2012

20 anos da Banda Sinfônica do CDMCC


A Banda Sinfônica do Conservatório de Tatuí, um dos grupos de sopros mais atuantes do país, comemorou em fevereiro o 20o aniversário. Formada em 1992, ela teve estreia oficial no dia 14 de junho do mesmo ano. Um concerto ou até mesmo uma temporada de apresentações comemorativas ainda serão definidos pela produção da instituição musical.
O grupo surgiu a partir de processo de semiprofissionalização que tinha como objetivo unir músicos profissionais e alunos da instituição tatuiana. Na edição do jornal “Cruzeiro do Sul” de 28 de fevereiro de 1992 e de O Progresso de Tatuí de 1º de março de 1992, um notícia explicava a criação da Banda Sinfônica do Conservatório de Tatuí e da Orquestra de Cordas (atual Orquestra Sinfônica). De acordo com as publicações, o repertório da banda seria “bastante variado e incluiria dobrados, marchas, clássicos, música contemporânea e até MPB”, e, “em breve, o grupo faria o primeiro concerto”.
“O resultado é um conjunto versátil, coeso, que apresenta obras de grande dificuldade, como ‘O Pássaro de Fogo’, de Stravinsky. O repertório, que vai de transcrições de obras para orquestra a um imenso material original para banda sinfônica, tem sido explorado pelo maestro Dario Sotelo com grande versatilidade. Nesses 20 anos, ele deu forma ao som do grupo, dando-lhe caráter próprio inconfundível. É um marco na história da instituição”, afirma Henrique Autran Dourado, diretor executivo do Conservatório Dramático e Musical “Dr. Carlos de Campos”.
Pouco tempo após a criação do grupo, o maestro Dario Sotelo Calvo – formado em piano, violino e viola e mestre em regência orquestral pela “City University”, em Londres, como aluno de Ezra Rachlin, um dos discípulos de Fritz Reiner – assumiu integralmente a batuta e ficou responsável pela condução dos músicos.
Em 20 anos de existência sob o comando do regente, a Banda Sinfônica do Conservatório de Tatuí fez intenso trabalho de divulgação internacional da música brasileira e trouxe para o Brasil peças dos mais importantes compositores mundiais.
“A Banda Sinfônica do Conservatório de Tatuí é considerada um projeto altamente positivo e modelo para outras instituições musicais no Brasil e na América Latina. Possibilitou abertura de campo de trabalho a músicos profissionais e professores de instrumento da instituição tatuiana, que tiveram também a possibilidade de ensinar diretamente aos estudantes o repertório abordado somente por conjuntos profissionais”, afirmou Sotelo.
De acordo com a assessoria de comunicação do Conservatório, uma das principais características que marcaram os 20 anos de atividade da Banda Sinfônica é o incentivo à produção de obras originais, por meio de encomendas a arranjadores e compositores brasileiros.
Entre as peças mais importantes, estão: “Sinfonia no 1”, de Edmundo Villani-Côrtes; “Sinfonia Anõia”, de Sérgio Vasconcellos-Corrêa – que mereceu prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de “melhor obra sinfônica de 1999” –; “Retratos do Brasil”, de Hudson Nogueira; “Portrait” e “Concerto para Banda”, de Edson Beltrami, entre muitas outras.
Atualmente, a Banda Sinfônica do Conservatório de Tatuí conta com 120 obras escritas para o grupo, de todos os gêneros musicais. Dentre estas, há 72 estreias brasileiras de repertório internacional, que, atualmente, são consideradas referências mundiais.
Para Beltrami, flautista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e compositor de obras para o conjunto tatuiano, esta é uma das grandes funções dos conjuntos. “O maestro Dario foi o grande incentivador para a revelação de novos compositores, foi ele quem abriu o caminho, fazendo as obras terem reconhecimento. Hoje, a minha obra é tocada no mundo todo devido ao trabalho da banda. O grande trabalho é a revelação de talentos e profissionais brasileiros”, comentou.
Ao longo de sua existência, a Banda Sinfônica esteve presente em todas as conferências anuais do gênero e recebeu os mais importantes regentes mundiais como convidados. Dentre eles, destacam-se os americanos Arnald Gabriel, Virginia Allen, Daniel Havens, Isaac Daniel Jr., Pamela Bustos, Thomas Lee, Lowell Graham, Thomas O’Neal e Matthew George; os argentinos Hadrian Avila, David Antezana e Juan Ringer; os espanhóis Francisco Grau Vegara, Pablo Sanches Torrella, Rafael Sanz-Espert; os brasileiros Marcelo Jardim e Marcelo Maganha; e o canadense Glenn Price.
Em outubro de 2011, os músicos da Banda Sinfônica estiveram sob a batuta do maestro Frank Battisti, responsável por revolucionar o repertório dos conjuntos de sopros. Foram dois ensaios abertos para o público e um concerto realizado no final do mês de outubro.
O “mestre das bandas sinfônicas”, em entrevista à “Revista Ensaio”, disse que ficou impressionado com a estrutura do Conservatório de Tatuí e com a qualidade dos músicos que integram o grupo de sopro da instituição.
“Eu não conheço outro lugar que tenha essa estrutura de banda sinfônica, unindo um conjunto principal de profissionais a outro de estudantes bolsistas e, ambos, trabalhando juntos. Isso é fantástico, muito bom. O grupo tem todas as qualidades que um regente de nível profissional gostaria de encontrar ao liderar uma banda sinfônica: bons músicos, pessoas atentas, disciplinadas, amáveis e que conseguem produzir bons resultados musicalmente. Estou muito impressionado com o Conservatório de Tatuí”, afirmou Battisti.
Durante 15 anos, entre 1993 e 2008, a banda atuou com o nome de “Orquestra Brasileira de Sopros”. De acordo com Sotelo, a mudança para o nome atual ocorreu devido ao repertório do grupo.
Sob a antiga denominação, em 1995, o conjunto gravou o primeiro CD, chamado “Compositores Brasileiros”, marcando o trabalho de documentação de diversos gêneros. Já em 1997, gravou “Pró Banda – Compositores Brasileiros”. No ano 2000, gravou o CD “Arranjadores Brasileiros”. Em 2001, foram dois CDs de demonstração para a editora holandesa “Gobelin”.
Em 2002, efetuou a gravação do CD “Retratos”, enquanto que, em 2003, gravou “Pró Banda” e uma nova demonstração, dessa vez para uma editora japonesa. Também foram gravados “Do Coração e da Alma – Obras de Hudson Nogueira” (2004) e “15 Anos” (2006).
Em 2007, a banda realizou a primeira gravação em DVD na história do Conservatório de Tatuí. O DVD “15 Anos” traz documentário sobre o grupo, além de repertório que inclui Astor Piazzolla, Tom Jobim e Zequinha de Abreu

FORMAÇÃO MUSICAL

Uma das principais características da Banda Sinfônica é ter entre os integrantes alunos bolsistas. Os interessados passam pelo crivo do maestro Sotelo e, se aprovados, devem assinar presença nos três ensaios semanais e nas diversas apresentações durante o ano. Além da experiência musical, os estudantes recebem bolsa no valor de R$ 1.000. Na temporada de 2011, dos 63 integrantes do grupo, 25 eram bolsistas.
Para a instituição, a troca de experiências entre alunos e professores no mesmo palco tem tido bons resultados. Segundo o assessor pedagógico do Conservatório, Antonio Ribeiro, “é perceptível a melhoria dos músicos ao término do período da bolsa”.
“Podemos dizer que, além de aumentarem enormemente o nível musical, quase 90% dos alunos que passam pelo grupo conseguem se tornar profissionais depois, atestando o quão valiosa foi essa experiência”, disse.
“Os benefícios são inúmeros, porém, cabe destacar: senso de integração, trabalho em equipe, melhoria da afinação, respeito ao próximo, conhecimento de riquíssimo repertório e contato com concepções interpretativas diversas da sua própria”, acrescentou o assessor.
De acordo com Sotelo, a banda foi criada por meio de um projeto de profissionalização de alguns conjuntos do Conservatório. O objetivo do projeto era abrir espaço de trabalho a músicos profissionais e dar a possibilidade de prática de atuação profissional a alunos.
“A Banda Sinfônica do Conservatório de Tatuí tem como meta trazer ao conhecimento do estudante, do profissional e da plateia brasileira o maior número de grandes obras de compositores que fizeram e estão fazendo a história da música para sopros sinfônicos no mundo. Como uma estrada de mão dupla, tem como objetivo incentivar compositores brasileiros, que ainda conhecem pouco o potencial da banda sinfônica como conjunto para suas ideias musicais, a criarem obras originais para esta formação”, explicou o maestro.

FORMAÇÃO DE PÚBLICO

Outra característica importante da Banda Sinfônica do Conservatório de Tatuí, segundo a assessoria de comunicação, é o esforço em formar novas plateias por meio de concertos didáticos. A assessoria informa que, ao longo dos últimos anos, a banda vem realizando ações didáticas com objetivos de educar e envolver crianças e adolescentes no universo da música erudita. Neste sentido, destacam-se projetos especiais como “Guia para Banda”, “Villa-Lobos Encontra Guarnieri”, “A Vinda da Família Real ao Brasil” e “Momo Precoce”.
“O motivo principal de toda a carreira musical é tocar para uma plateia. Assim, qualquer carreira buscará desenvolver seu público, seja esta música mais acessível ou mais elaborada. Sendo assim, um grupo sinfônico como a Banda, deve ter como parte de suas metas atingir todos os extratos sociais, buscando formas de apresentar o seu repertório de maneira que tanto crianças e jovens quanto adultos de várias faixas etárias possam entender e passar a apreciar esta linguagem musical sinfônica”, observa Sotelo.
Além destes programas, a Banda Sinfônica promoveu, em 2011, o espetáculo “Sonho de Criança”, junto com a Companhia de Teatro do Conservatório de Tatuí. Nas sete apresentações, o grupo pedagógico-artístico integrou quase 3.000 crianças, que também participaram de concurso de desenho, que teve o resultado revelado no concerto comemorativo ao aniversário de Tatuí, em agosto.
“Devemos também lembrar que a música instrumental, não somente de grupos sinfônicos, mas de outros grupos, incluindo aqui os populares, quase não são veiculados nos meios de comunicação de massa, que atingem a grande população. Esta realidade faz com que todos os líderes de conjuntos sinfônicos estabeleçam estratégias de formação de plateias e, com a Banda Sinfônica, optamos por atingir primeiramente as crianças e os jovens, grupos que precisam ser expostos a todos os tipos de manifestação musical e suas mensagens artísticas”, concluiu Sotelo.

VIVENDO NA BANDA SINFÔNICA DO CDMCC

O dia 15 de dezembro de 1994 é inesquecível para Max Eduardo Ferreira, formado no curso regular e no aperfeiçoamento de clarinete do Conservatório. Nesse dia, ele passou em primeiro lugar no processo seletivo entre os alunos para atuar na Banda Sinfônica da instituição.
“Tem sido para mim a realização do sonho de um menino que aprendeu a tocar clarinete na banda da sua cidade, que se imaginava atuando num grupo do mais alto nível musical, técnico e artístico, e de conviver profissionalmente com músicos de extrema competência”, exaltou o músico.
Desde 1994, o caminho de Ferreira tem sido bastante satisfatório. Em 1995, como bolsista, começou a participar dos ensaios e dos concertos do grupo e, atualmente, assume o posto de spalla.
Ele citou algumas das experiências vividas na Banda Sinfônica. “Em uma pequena lista, estariam incluídos os fatos de eu ter sido regido por grandes maestros de diversas partes do mundo, a gravação de oito CDs, a possibilidade que eu tive de ter uma composição minha executada pela banda e solada por mim e até a grata satisfação de ter regido esse grupo maravilhoso. Porém, a mais gratificante talvez seja a de ser, hoje, uma singela referência para os atuais alunos de clarinete do Conservatório de Tatuí”.
Carlos Alberto Franco Oliveira é uma figura constante nos concertos e ensaios da Banda Sinfônica. Responsável por organizar as partituras dos músicos antes dos ensaios e apresentações, ele está no grupo desde 1995. Atualmente com 45 anos, afirma que a relação com os músicos é de pura amizade.
“Pra mim, é um laço familiar. A maioria dos músicos da banda eu vi entrar ainda aluno. Nós sempre vamos uns nas casas dos outros. Tenho carinho, amizade e respeito por todos os integrantes”, conta.
“Nestes 20 anos, a Banda Sinfônica sofreu muitas transformações, mas manteve o mesmo nível de excelência. Pode sair um músico profissional que entra um aluno tocando muito bem. Atualmente, é a melhor banda do país. Espero que o grupo mantenha o mesmo processo de renovação e que sempre fique no topo”, finalizou Oliveira.

MAESTRO DARIO SOTELO

Formado em piano, violino e viola, recebeu o título de mestrado em regência orquestral pela “City University”, em Londres, como aluno de Ezra Rachlin, um dos discípulos de Fritz Reiner. Foi coordenador da área de cordas do Conservatório de Tatuí, reestruturando os programas dos cursos dos instrumentos de cordas, integrando-os às atividades de música de câmara e orquestra, em níveis equiparados. Criou e estabeleceu orquestras em Tatuí e Belo Horizonte.
Pelo Conservatório de Tatuí, realizou várias encomendas e estreias mundiais a compositores brasileiros, tendo como exemplos a ópera “A Peste e o Intrigante”, de Mário Ficarelli; “Cantata de Natal”, de Ernest Mahler; e “Sonho de Uma Noite de Verão”, de Edson Beltrami. Após dois anos em Londres (1991 e 1992), foi convidado a assumir a regência da Banda Sinfônica do Conservatório de Tatuí e a estabelecer o curso de regência instrumental da instituição.
Como palestrante e regente convidado, participou de dezenas de atividades internacionais. Entre elas, o Festival de Música Brasileira em Wattwill (Suíça), gravação para a Rádio Estatal Húngara, turnês pelos Estados Unidos e Espanha. Atuou, ainda, como regente e palestrante na Convenção Estadual de Minnesota, em Mineápolis, na Universidade de Duluth e na “Berklee College of Music”, na cidade de Boston, nos Estados Unidos.
Também como regente, vem atuando em vários outros lugares do mundo, como Hungria, Austrália, Uruguai, Colômbia, Alemanha, Inglaterra, África do Sul, Paraguai e Argentina. No Brasil, atua em cidades como Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Blumenau, Caxias do Sul, Porto Alegre e em festivais como os de Campos do Jordão e São João Del Rei.
Estabeleceu em Tatuí a Conferência Ibero-Americana de Compositores, Arranjadores e Regentes de Banda Sinfônica e foi o coordenador geral e artístico, nos anos de 2002 e 2004, e secretário-geral do “IV Congreso Ibero-Americano de Compositores, Arregladores y Directores de Banda Sinfônica e Ensembles”, coordenando o evento na cidade de Tenerife (Espanha).
Desde 1995, teve a oportunidade de gravar nove CDs com a Banda Sinfônica e a Orquestra Sinfônica do Conservatório de Tatuí, com obras de diversos autores brasileiros. Já realizou 122 estreias mundiais de obras de compositores brasileiros e 98 estreias brasileiras de compositores internacionais.
Além de regente da Banda Sinfônica do Conservatório de Tatuí, é professor de regência instrumental na instituição e membro do Conselho e da Comissão Artística da Wasbe (Associação Mundial de Conjuntos de Sopros e Bandas Sinfônicas), representante da América do Sul, sendo candidato à presidência para 2014.

Twitter Facebook More