sábado, 7 de janeiro de 2012

Samu completa 1 ano na cidade


A enfermeira Andréia Fonseca tem 38 anos e três filhos, os quais só vê em raras ocasiões. Desde 2006, ela tenta dividir o pouco tempo de folga com eles para compensar a ausência nas datas especiais. A profissional, graduada em enfermagem e pós-graduada em urgência e emergência, há praticamente seis anos passa o Ano-Novo em serviço. Andréia é uma das 26 pessoas que integram o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) de Tatuí, “família” que completou um ano de atividade em dezembro passado.
O Samu tatuiano é vinculado a Itapetininga. Na verdade, o serviço faz parte do Samu Regional, que tem central no município vizinho. Em nove meses de atividade (de janeiro a setembro do ano passado) – o balanço final ainda não havia sido fechado e divulgado até esta sexta-feira, 6 –, o serviço somou mais de 47 mil atendimentos e uma marca preocupante: 179 trotes ao telefone 192.
Os números foram divulgados pelo coordenador geral dos serviços de urgência e emergência do município, Jerônimo Fernando Dias Simão, durante a ceia de Ano-Novo da equipe. A confraternização aconteceu às 22h30 do dia 31 de dezembro, na sede do Corpo de Bombeiros, e contou com a presença de todos os profissionais em serviço nas dependências do quartel local. A ceia, acompanhada pela reportagem de O Progresso, teve a participação do sargento dos bombeiros, Luis Henrique de Mendonça.
A confraternização, segundo ele, é sempre antecipada em função dos “imprevistos”. “Normalmente, as famílias fazem suas ceias à meia-noite. Depois deste horário, o número de ocorrência começa a aumentar. Então, para que possamos estar prontos para os chamados, nós nos adiantamos”, contou o oficial.
A ceia do dia 31 de dezembro teve a participação de mais de 30 pessoas, incluindo integrantes da Guarda Civil Municipal, Polícia Militar, bombeiros, a equipe do Samu (na ocasião, com cinco profissionais) e familiares dos agentes do CCE (Centro de Comunicação de Emergência), que estavam de plantão. “Procuramos sempre nos unir”, comentou o sargento.
O “acontecimento” serve para amenizar a saudade que os profissionais têm de suas famílias. “Cada um traz um pouco (pratos a serem servidos) de casa”, contou Mendonça. A outra parte da ceia é complementada pela Prefeitura. “Dentro desta possibilidade, nós procuramos trazer nossos familiares para cá”, disse o sargento.
Normalmente, a confraternização tem início às 20h. No último dia de 2011, aconteceu um pouco mais tarde, por conta de um dado curioso: durante todo o dia 31 de dezembro, o Samu tatuiano registrou um único atendimento, prestado às 23h10. O chamado foi feito pela família de um homem de 54 anos, recém-operado, que havia sofrido queda da cama dele.
A ocorrência mobilizou a viatura de suporte básico do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. O Samu local conta, atualmente, com três veículos de atendimento, sendo o segundo uma viatura de suporte avançado (com a presença de um médico) e o terceiro, utilizada no chamado transporte sanitário.
O Samu de Tatuí começou a operar no dia 3 de dezembro de 2010. Na ocasião, contava somente com a viatura de suporte básico. Desde então, teve aumento da equipe, da estrutura e dos atendimentos. Atualmente, o serviço conta com a presença de profissionais médicos, para atendimento das ocorrências de maior gravidade. O serviço local é composto por sete médicos, cinco enfermeiros, cinco técnicos de enfermagem e nove motoristas.
Os profissionais atuam na chamada escala “12 por 36” (12 horas de trabalho e 36 horas de folga), o que permite um “grande revezamento” da equipe. O Samu registrou, nos nove primeiros meses de 2011, 47.269 atendimentos somente em Tatuí, segundo relatório preliminar. “Vale lembrar que o serviço é regional”, disse Simão. Os chamados efetuados na região de Itapetininga, que abrange Tatuí, são direcionados à central do serviço, naquele município.
Lá, é feita uma classificação da ocorrência, por um profissional médico. A classificação varia de acordo com as queixas apresentadas pela vítima, ou por parentes dela. “A partir daí, o médico define qual é o melhor recurso que será disponibilizado”, explicou. As ocorrências atendidas pelo Samu são decorrentes de chamados feitos ao telefone 192 (antigo serviço de urgência e emergência). Até 2010, o atendimento era municipalizado.
Do total de atendimentos, as emergências clínicas respondem pela maioria. Os demais chamados referem-se a emergências traumáticas. As clínicas englobam insuficiências respiratórias, paradas cardíacas, arritmias, diabetes descompensadas e hipertensão. As traumáticas correspondem a fraturas em decorrência de quedas e, especialmente, de acidentes com veículos. Nestes, a maior parte é consequência de colisões com motos.
Na cidade, os acidentes com motocicletas chegaram a 903, dos 1.511 registrados no Pronto-Socorro Municipal “Erasmo Peixoto”, no período de janeiro a novembro de 2011. Os com veículos automotivos (carros) totalizaram 203.
Grande parte das ocorrências traumáticas é atendida pelo Corpo de Bombeiros, que atua em parceria com o Samu. “De acordo com a gravidade dos acidentes, eles (os soldados) solicitam o nosso apoio”, comentou o coordenador geral dos serviços de urgência e emergência do município.
A integração deve-se ao fato de que o Samu funciona junto ao Corpo de Bombeiros. A aproximação permite às equipes cumplicidade e cria “vínculo familiar”. “Eles são a nossa segunda família”, disse o médico João Ayres, em plantão. O profissional deixou a “primeira família” em casa para prestar atendimento à população. “Tem um desprendimento nesta nossa profissão, sim”, respondeu ele, minutos antes da virada de ano, referindo-se à equipe do Samu.
O maior desafio de um profissional que se propõe a atuar neste tipo de serviço, segundo ele, não é a saudade da família, mas, sim, o salvamento de uma vida. Uma das situações mais difíceis de serem revertidas, conforme Ayres, é a parada cardiorrespiratória. A taxa de salvamento, no caso de uma PCR, como é chamado o problema de saúde pelos profissionais da área, é de 10%. “É baixo, mas conseguimos reverter alguma coisa, sim”, comentou.
A dificuldade na reversão está, principalmente, no “tempo-resposta”. O preconizado internacionalmente é 12 minutos. “É um tempo considerado crucial para quem sofreu uma parada cardiorrespiratória”, justificou o médico. Em Tatuí, o tempo é, na maioria das vezes, menor. A chegada da viatura do Samu ao local depende, principalmente, das condições do trânsito e da localização da vítima. Em Tatuí, porém, existe um terceiro elemento: os motoristas. “Eles não estão acostumados a nos dar passagem”, disse o médico.
De acordo com Ayres, a população ainda titubeia na hora de permitir que a viatura passe. “Muita gente fica lerda, achando que a sirene está tocando por tocar”, criticou. Por outro lado, o médico disse que falta preparo para os condutores. “Muitos querem nos ajudar, mas não sabem que reação ter”, adicionou. O receio é, na maioria das vezes, de que a ação possa ter como conse-quência uma multa. “Isto é visível quando o motorista está perto de um semáforo. Ele fica com medo de encostar ou atravessar no vermelho e ser multado”, disse.
Dificuldades à parte, o Samu tem registrado vitórias e reconhecimento da população. Tanto que a equipe já chegou a receber agradecimentos de vítimas e de familiares de socorridos. “Isto é comum. Hoje mesmo (dia 31 de dezembro), uma pessoa nos procurou agradecendo um salvamento que fizemos”, contou Ayres. O médico atribui as “gentilezas” ao entrosamento da equipe. Segundo ele, os profissionais do Samu tatuiano fazem um trabalho mais que satisfatório. “O importante é isto: que o Samu não é uma única pessoa, mas uma equipe de profissionais que atua junta”, complementou.
Jerônimo Fernando Dias Simão, coordenador geral dos serviços de urgência e emergência do município, sabe bem o que é atuar em equipe. Enfermeiro desde 2004 e na área de saúde há dez anos, ele já passou por diversos órgãos do município. Atualmente, responde por dois dos mais importantes deles, o Samu e o pronto-socorro municipal. “É gratificante conseguir, através da administração municipal que apoia muito o serviço, esta confiança”, disse.
Para manter os serviços funcionando, o profissional, mais que ter os objetivos alcançados na área da enfermagem, precisa dedicar-se quase que integralmente. “Sempre estamos cuidando do próximo, nunca da gente e, como minha área é a coordenação geral, não há datas especiais. Qualquer dia é dia de ajudar ao próximo”, comentou, em relação às celebrações de Natal e Ano-Novo. Nas duas datas, Simão esteve a serviço do município.
Acostumado a celebrar com as equipes, o coordenador geral disse que considera os profissionais sua segunda família. “Nós já passamos o ano todo juntos, então, por que na data de hoje eu não poderia celebrar com eles?”, perguntou. A comunicação com a família acontece somente antes do horário de trabalho. “Depois que estou de serviço, mensagens e ligações não há”, afirmou. Simão disse que isto evita que o serviço fique comprometido.
Menos rígida, Andréia Fonseca dá umas “escapadas” para ler mensagens enviadas pelos filhos. O mais velho, Flávio Faustino dos Santos, além de enviar um recado, decidiu ir à sede do Samu para abraçar a enfermeira. “É sempre assim: todos os anos ele vem me ver”, disse Andréia, que não via o filho havia praticamente 15 dias. “Eu sinto muita falta dela”, disse Santos. O jovem, de 24 anos, deixou de viajar com os amigos para ficar com a mãe. “Troquei uma viagem para o Guarujá para vê-la”, contou à reportagem.
O desprendimento da profissional, apesar de compreendido pelos filhos, não deixa de provocar marcas. “Faz anos que eu não consigo passar uma data especial com eles, porque estou trabalhando. Mas eles sabem que é pelo bem deles”, disse Andréia. Ela está no serviço de urgência e emergência desde o antigo 192 de Tatuí.
Antes, a enfermeira fazia parte do corpo de profissionais do pronto-socorro. Com a vinda do Samu a Tatuí, Andreia foi selecionada para atuar no serviço. Ela, assim como os 25 profissionais, está dentro do “perfil” exigido pelo Ministério da Saúde. Para atuar no serviço, Andréia teve de fazer pós-graduação e acostumar-se a uma nova dinâmica de trabalho. “É totalmente diferente”, disse.
No pronto-socorro, a profissional atuava numa espécie de segunda parte do atendimento. “Eu não tinha experiência em pranchar (remover o paciente do local do acidente com uma prancha), pegar um trauma, por exemplo. Recebia a pessoa ‘pronta’”, descreveu. No Samu, outra diferença é a estrutura física. Os profissionais estão muito mais expostos e, por conta disto, devem ter uma precaução ainda maior.
Também no serviço, os atendimentos costumam ser mais “inesquecíveis” para quem presta os primeiros-socorros. Um dos fatos mais marcantes descritos pela equipe de Tatuí foi o resgate de uma criança ejetada do banco de um automóvel que se envolveu em colisão na rodovia Castello Branco. O acidente ocorreu no Dia das Crianças. “Chocou bastante por eu ser mãe”, disse Andréia.
Mesmo com toda a experiência, segundo ela, os profissionais podem surpreender-se. A comoção pode ser ainda maior nos períodos comemorativos, como Natal e Ano-Novo, em que a equipe fica longe da família. “Nós só conseguimos trabalhar porque focamos no nosso objetivo, de estar aqui, nestas datas, ajudando alguém. Esta é a nossa missão”, destacou Andréia.
O preparo emocional também acompanha o profissional. Os integrantes do Samu, todos, passam por cursos de aperfeiçoamento. As capacitações ajudam a equipe a prestar serviço mais rápido e mais preciso, evitando perdas de vidas. “Todos já sabem que procedimentos adotar”, disse a enfermeira. A preparação da equipe depende, em muito, do tipo de chamado. “É um trabalho em equipe, você olha para o seu colega e ele já sabe o que você quer”.
Até que esta “sintonia” acontecesse, os profissionais passaram por período de adaptação. Também fizeram cursos. “O treinamento é igual para todos. Temos que ter o mesmo princípio. Só há diferença entre uma pessoa e outra na classificação profissional (enfermeiros, técnicos, etc.)”, afirmou o coordenador geral.
Para manter o serviço funcionando em perfeita harmonia, Simão atua como se fosse um “pai da família Samu”, ouvindo os funcionários que, muitas vezes, precisam desabafar sobre problemas familiares. “Vamos dividindo experiências e situações, tentando, da nossa forma, sempre um ajudar ao outro”.

ATÍPICO
A passagem de Ano-Novo, na madrugada do dia 31 de dezembro de 2011 para o dia 1º de janeiro de 2012, foi considerada atípica pela equipe do Samu. Na ocasião, houve somente uma única ocorrência. O tempo chuvoso, na opinião de Simão, contribuiu para que não houvesse ocorrências. As mais comuns, nessa data, são as queimaduras por fogos de artifício e os acidentes. “Com a chuva, está sossegado porque as pessoas evitam sair de casa”, falou.
De acordo com ele, ainda que as ocorrências aumentem nestas datas (Natal e Ano-Novo) – elas costumam dar um pouco mais de trabalho para a equipe –, não existe um “horário de pico”. “É muito variado”, comentou. Alguns casos, porém, são mais comuns em determinados meses e horários. Os acidentes de trânsito, por exemplo, ocorrem em maior parte no final do expediente de trabalho (à tarde).
Já as emergências clínicas são mais comuns no inverno, onde há aumento dos casos de infarto agudo do miocárdio e de hipertensão, por conta da fisiologia humana e da fisiopatologia das doenças. No inverno, também, os atendimentos a pessoas com problemas respiratórios aumentam significativamente. No verão, as desnutrições, meningite e viroses tornam-se as vilãs.
Sem divulgar números, Simão afirmou que o primeiro dia de 2012 surpreendeu em relação a 2011. “Houve uma conscientização muito grande da população”, disse. A situação tatuiana reflete tendência no Estado. Apesar da chuva e do movimento de veículos, São Paulo registrou queda de 20% no número de acidentes no feriado de Réveillon em relação ao mesmo período do ano passado. “O número de mortes também caiu”, disse o coordenador.
Na região, conforme balanço divulgado pela CCR SPVias, houve 19 acidentes entre os dias 29 de dezembro e 1o de janeiro nas rodovias administradas pela concessionária. O fluxo, no período, foi de 390.402 veículos. A rodovia Castello Branco (SP-280), que liga o município à capital do Estado, registrou o maior movimento: 245.158 veículos.
Além dos abusos no trânsito, os com o álcool também diminuíram. Na virada do ano, as chamadas mais comuns são as de pessoas que passam mal após a ingestão de bebida alcoólica. “Muita gente exagera não só na comida, mas na bebida. Isto é comum em épocas de euforia”, comentou Simão.
Ainda assim, o Samu tatuiano responde por 40% das ocorrências da região, a qual abrange 350 mil habitantes. O município realizou, no período de um ano, aproximadamente 6.000 atendimentos. Também somou 179 trotes em nove meses.
O número de falsas comunicações de ocorrências é considerado alto. “Se nós analisarmos que um ano tem 365 dias e nós tivemos 179 trotes em nove meses, é algo preocupante”, falou Simão. De acordo com ele, os trotes são originados por pessoas de diversas idades e localidades. “Não existe um padrão”, afirmou.
As chamadas falsas, feitas por crianças e adultos, ocupam não só um tempo precioso da equipe, mas podem representar a diferença entre a vida e a morte. “Nós poderíamos estar atendendo a outra pessoa”, argumentou o enfermeiro. Os trotes também podem comprometer, em muito, o serviço na cidade. Em 2011, no entanto, não houve casos em que todas as viaturas estivessem empenhadas em trote. “Em 2010, nós tivemos esta situação”, comentou.
Os prejuízos, segundo o enfermeiro, ficam somente com a população. A equipe do Samu, conforme ele, ainda que atenda uma falsa chamada, está cumprindo uma carga horária. “Nós estamos aqui para trabalhar, temos um horário para cumprir. Independente de ser trote ou não, temos de ir. Quem corre o risco das consequências de uma brincadeira de mau gosto é a própria população”, falou o profissional, que também participou da ceia de Ano-Novo.
Simão, assim como os motoristas Edmar Quadros e Daniel Pereira, a enfermeira Andréia e o médico Ayres, em serviço na passagem de ano, prezam pelo atendimento ao próximo. “Temos de saber que o que vale mais é a vida”, disseram à reportagem. E a vida de todos eles está, quase que os 365 dias de um ano todo, unida em prol da população. Trata-se de um desprendimento que, como tal, ainda que eventualmente não reconhecido, merece ser, no mínimo, respeitado.

Twitter Facebook More