Cidade já possui parte do recurso para resolver o problema, mas busca local
O momento positivo pelo qual passa o setor de construção civil no Brasil chama a atenção para um problema que cresceu na mesma proporção do número de obras: a maioria das cidades ainda não consegue dar uma destinação correta aos resíduos sólidos produzidos nas construções. Há alguns anos as usinas de reciclagem de entulho surgiram como solução praticamente definitiva para a questão. Nelas, o material é transformado para ser aproveitado novamente em outras obras.
No entanto, até agora, poucas cidades conseguiram instalar usinas para reciclar o entulho da construção civil. Anunciada no final de 2009, a usina de reciclagem de Tatuí ainda não possui prazo para começar a operar. De acordo com a Sema (Secretaria Municipal do Meio Ambiente), todo o maquinário já foi adquirido pelo município. A escolha de uma área para instalá-lo estaria atrasando a conclusão do projeto.Uma parte dos recursos para a instalação da usina de reciclagem - cerca de R$ 250 mil - foi repassada por meio de um convênio assinado em dezembro de 2009 entre a Prefeitura e a Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Isso ocorreu graças à certificação de Tatuí como “município verde”, obtida durante o ano de 2008. O restante da verba, de R$ 230 mil, deveria ser bancado pelo município, como contrapartida ao investimento.
Apesar do atraso, o secretário do Meio Ambiente, Paulo Sérgio Medeiros Borges, garante que o projeto permanece e será colocado em prática. O maior desafio estaria em encontrar uma área que possuísse a viabilidade necessária para suprir a demanda exigida por uma usina do tipo.
O secretário lembra que a área precisa ter fácil acesso para veículos pesados, que fariam o transporte dos resíduos e da produção. Também precisa ter espaço disponível para armazenar materiais excedentes. A usina também não pode ser instalada muito próxima a residências ou outros empreendimentos, pois produz grande quantidade de poeira e barulho. Por fim, para operar, precisa estar autorizada pelos órgãos ambientais.
Segundo Borges, algumas áreas já foram verificadas para a instalação, mas nenhuma teria reunido condições suficientes. “A gente tem várias áreas, mas todas elas têm algum impedimento, da parte ambiental ou da parte logística”, disse. Entre os pontos já testados, há um no distrito industrial, próximo à saída para Sorocaba, e outro na rodovia Antonio Romano Schincariol (SP-127). Uma área localizada ao lado do aterro municipal também chegou a ser cogitada, mas como o “Lixão” será fechado em breve, a nova construção não foi permitida.
Conforme informações do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil de São Paulo), em 2010, o segmento da construção civil cresceu 11% no Estado. O desempenho é o melhor dos últimos 20 anos. Para 2011, o sindicato projetou crescimento de 6%.
A constatação deste número de construções e do volume de entulho produzido nas obras de Tatuí fez com que surgisse a ideia de implantar a usina no município. “Basta observar como a cidade está crescendo, os bairros estão se expandindo e aumentando o número de construções”, declarou o secretário do Meio Ambiente.
Para ele, o município terá que se adequar a esta situação, pois “não há como impedir o desenvolvimento por não haver um lugar adequado para jogar este material”. Neste caso, a solução apontada por Borges seria arranjar o local o mais rápido possível. “O desenvolvimento vai acontecer, então, é preciso se preparar isso”, declarou.
Um estudo publicado recentemente pela PUC-GO (Pontifícia Universidade Católica de Goiás) aponta o desperdício de materiais da construção como uma das maiores causas para a elevada quantidade de produção de entulho nas obras. Segundo o estudo, nas regiões metropolitanas brasileiras, o entulho das construções representa entre 54% a 70% dos resíduos sólidos produzidos. Isso equivale a uma geração aproximada de meia tonelada de entulho por habitante ao ano.
Não há um cálculo total da quantidade de entulho produzida nas construções de Tatuí. Porém, a nova usina deverá ter capacidade de processamento de aproximadamente 60 toneladas por dia, número considerado suficiente para atender à demanda da cidade.
Atualmente, os resíduos das construções do município estão sendo levados para o aterro sanitário, onde são depositados junto ao lixo doméstico. “É algo que nem poderia estar acontecendo, mas é uma situação de emergência que, na verdade, já é uma rotina. O problema é que não tem outro lugar para depositar”, disse Borges. O entulho depositado no aterro não recebe nenhum tipo de tratamento e mesmo quando a usina iniciar as operações, o material não poderá mais ser aproveitado.
Na usina, o entulho passará por triagem inicial, na qual será separado conforme os tipos de resíduos. As máquinas terão capacidade para triturar apenas materiais pedregosos, como lajes, tijolos ou vigas de concreto. Itens como ferro, madeira ou plástico terão de ser separados e receber outro destino.
Os pedregulhos triturados pela usina passam a ter composição semelhante à da areia. A tendência é que a Prefeitura utilize o composto para recuperar estradas sem pavimentação e para construir calçadas. “As estradas vicinais, que na época de chuva sofrem danos com a erosão, poderão ser recuperadas, trazendo uma economia para o município”, comentou Borges.
Ainda não existe uma estimativa em relação aos custos operacionais da usina de reciclagem. A justificativa é de que o município ainda não possui experiência com este tipo de atividade. Mesmo assim, há um entendimento de que as maiores despesas serão com a manutenção das máquinas e o pagamento de funcionários. “Mas, na relação custo e benefício, com certeza, os ganhos serão muito maiores, principalmente por causa da questão ambiental”, disse o secretário.
O assoreamento do leito dos rios e o fechamento de nascentes estão entre os principais problemas ambientais causados pelo depósito de resíduos da construção em locais impróprios. Além disto, o cimento pode causar a contaminação do solo depois de algum tempo. Para Borges, a usina vai prevenir este problema: “Pode ser que não acabe totalmente, mas vai diminuir muito o volume de entulho que jogam na beira de rios, até dentro do Manduca, nas estradas ou terrenos baldios”.
“Estamos atrás desta área faz tempo e a Prefeitura está tentando viabilizar este empreendimento de todas as formas, porque vai ser um ganho muito grande para o município”, completou o secretário.
Segundo esclarece o engenheiro ambiental da Sema, Geraldo Ribeiro de Andrade Neto, em agosto de 2010, o governo federal aprovou a lei 12.305, que estabelece uma política nacional de resíduos sólidos. Ela obriga os municípios a criar um plano de gestão integrada de resíduos sólidos dentro de um prazo de quatro anos. O tratamento dos entulhos da construção civil estaria incluído nesta determinação.
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