segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Mostra recupera histórias de Mário Américo



Participar da conquista de três Copas do Mundo é um feito reservado a pouquíssimas pessoas. No Brasil, a maioria acredita que a lista de “privilegiados” inclui apenas os jogadores Pelé e Zagalo (na terceira vez, já como técnico). No entanto, em 1958 (Suécia), 1962 (Chile) e 1970 (México), os tricampeões estavam ao lado de Mário Américo, “o massagista das mãos de ouro”.
Em curta passagem por Tatuí, a exposição “Brasil Todas as Copas” apresenta mais de 200 objetos históricos colecionados pelo massagista durante os 24 anos em que ele acompanhou a seleção brasileira. A mostra, promovida pelo Rotary Club de Tatuí Nascer do Sol e pela Associação Nova Esperança, está em cartaz no município até as 14h deste sábado, 15, no espaço de eventos do Centro Cultural Municipal.
Também conhecido como “tio Mário”, pela relação de proximidade que mantinha com os jogadores, e como “massagista dos reis”, Américo é citado pelos historiadores do futebol como uma das figuras mais importantes e carismáticas do período mais vitorioso da seleção brasileira. “Dizem que foi ele que convenceu o Pelé a participar da Copa de 70”, afirmou Mário Américo Netto, curador da exposição.
Segundo Netto, o massagista sempre se preocupou em preservar a história da seleção brasileira, principalmente em relação às conquistas. Depois da aposentadoria, na década de 70, lançou o livro “O Massagista dos Reis” – uma autobiografia na qual revelou diversos acontecimentos que ele presenciou enquanto acompanhou os jogos da seleção.
“Ele conta todas as histórias: as boas, as ruins e as engraçadas. Cita coisas erradas que os jogadores faziam e fala muito mal da época em que João Havelange era presidente da CBD (Confederação Brasileira de Desportos). Eles eram amigos, mas como até hoje a gente vê problemas com dirigentes de futebol, ele também fala de percepções que ele teve com o presidente”, relatou o neto de Mário Américo.
Outra forma utilizada pelo massagista para preservar a história da seleção foi guardar objetos históricos, principalmente fotografias, uniformes, acessórios esportivos e recortes de jornal. Depois da morte dele, em 1990, o material foi herdado pela esposa que, em 2010, repassou tudo ao neto. Na primeira exposição realizada por ele, em São Paulo, houve a presença de 17 mil pessoas em quatro dias.
A abertura oficial da exposição aconteceu na manhã da quinta-feira, 13, e contou com a presença de Netto, do prefeito Luiz Gonzaga Vieira de Camargo, e do governador do distrito 4620 do Rotary Club, Luiz Antonio Machado Werneck.
De acordo com o governador, a exposição realizada em Tatuí representa umas das principais linhas de atuação do clube de serviços. “O Rotary sempre se preocupa em trazer grandes eventos, principalmente aqueles que ajudam a levar conhecimento e cultura às pessoas”, afirmou ele.
Nascido na cidade de Monte Santa (MG) e com família pobre, ainda criança, Mário Américo decidiu trabalhar no circo. “Ele gostava muito de circo”, relata o neto. Como também gostava de música, depois de alguns anos tornou-se baterista de orquestra. “Na ‘noite’, ele ficou conhecido como ‘Mário Charliston’ e apresentou-se até no Copacabana Palace”, disse o curador.
Uma “confusão” no grupo musical fez com que ele se mudasse para o Rio de Janeiro. Como também gostava muito das lutas de boxe, Mário Américo tornou-se lutador. Treinando no Madureira Esporte Clube, conseguiu ser campeão carioca antes dos 30 anos. O prestígio foi a motivação para que ele aceitasse lutar contra Kid Jof-frey, campeão mundial de boxe daquele ano.
“Nesta luta, ele apanhou muito e perdeu. Na mesa de massagem do clube, o médico disse que era melhor parar, porque meu avô era muito valente e ia acabar morrendo cedo”, explicou Netto. O autor do conselho sugeriu que o então boxeador seguisse a carreira de massagista, já que o profissional contratado pelo clube estava prestes a se aposentar.
“Foi então que o meu avô começou a aprender a profissão e tornou-se massagista”, continuou o curador. Em sete anos no departamento de futebol do Madureira, Mário Américo participou do período mais importante do clube, conquistando um campeonato carioca na divisão principal.
Dentro de campo, os protagonistas da façanha eram os jogadores Jair, Lelé e Isaias, também conhecidos como “três patetas”. Após o título, eles foram vendidos ao “poderoso” Vasco da Gama. Lá, eles “exigiram” a contratação do massagista Mário Américo, o que de fato aconteceu. “Meu avô ficou 12 anos no Vasco e, neste período, o time sagrou-se pentacampeão carioca”, contou o neto do massagista.
A eficiência da equipe do Vasco chamou a atenção da CBD e, em 1949, o ex-baterista e ex-boxeador foi chamado para acompanhar a seleção em um torneio sul-americano. Em 1958, ano da Copa do Mundo, na Suécia, Mário Américo tornou-se o massagista oficial da seleção. Antes disso, em 1953, ele foi contratado pela Portuguesa de Desportos, clube no qual trabalhou paralelamente até se aposentar, em 1974.
“Converso muito com os amigos que foram jogadores da seleção naquela época. O Pelé e o Zagalo contam que meu avô era com se fosse um pai para os jogadores, principalmente para aqueles que eram convocados pela primeira vez. Ele tratava bem todo mundo, tinha um carinho especial e ficou marcado com um grande amigo dos jogadores, além de ser muito brincalhão”, afirmou Netto.
As “brincadeiras” fizeram com que Mário Américo ficasse marcado como uma figura folclórica na história do futebol nacional. Segundo Netto, uma das passagens mais comentadas envolve o jogador Garrincha e a compra de um rádio durante a Copa da Suécia, em 1958.
“O Garrincha era um jogador muito ingênuo, mas brincalhão”, contou o neto do massagista. Durante o mundial, ele teria comprado um rádio para levar ao Brasil. “O Garrincha chegou todo alegre, dizendo que comprou um rádio, e o meu avô quis fazer uma brincadeira com ele, dizendo que no Brasil o rádio não funcionaria, pois o rádio só falaria no idioma sueco” relatou Netto.
Conforme ele, Garrincha acreditou e a “solução” apontada por Mário Américo seria vender o equipamento. “O meu avô fez uma proposta: você vende este rádio para mim e eu não falo para ninguém. Se não, o time inteiro vai rir de você”. O jogador acreditou e aceitou vender o rádio por 10% do valor original.
Atualmente, o equipamento encontra-se exposto no museu da Federação Paulista de Futebol. Outro objeto do acervo é a bola utilizada na final daquele mundial. A peça também envolve a “malandragem” de Mário Américo.
“No final do jogo, o chefe da delegação chamou o meu avô e falou que a seleção precisava levar a bola do jogo para o Brasil”, explicou o neto. Mesmo com a presença de dezenas de policiais no entorno do gramado, Mário Américo teria a missão de tirar a bola do juiz assim que ele apitasse o fim do jogo.
“Quando todos estavam comemorando o título (o título mundial do Brasil), o árbitro estava com a bola embaixo do braço. Neste momento, ele (Mário Américo) tirou a bola do juiz e saiu correndo com ela para o vestiário”, disse Netto. O fato gerou protestos das autoridades, que exigiram a devolução do objeto no banquete comemorativo. “Combinaram que ele teria que entregar a bola. Ele fez isso, só que havia trocado por uma réplica e trouxe a original para o Brasil”, acrescentou.
Na avaliação de Netto, o futebol atual está “um pouco carente” deste “espírito de brincadeira e de alegria”. “Quando a gente vê o Neymar (atacante do Santos), com os dribles e brincadeiras, isso está voltando um pouco”, afirmou o curador da mostra.
Para ele, existem poucos jogadores de futebol que trazem “alegria às pessoas” e, ainda menos, pessoas que façam isso na comissão técnica. “É difícil a gente ver um personagem folclórico, alegre e brincalhão, e o futebol tem essa função de levar alegria para as pessoas, ainda mais no Brasil”.
A exposição “Brasil Todas as Copas” pode ser visitada hoje, das 10h às 14h. O Centro Cultural está localizado na praça Martinho Guedes (Jardim da Santa), 12, no centro.
                                                                                         oprogressodetatui.com.br

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