domingo, 20 de maio de 2012

Pronto socorro da Santa Casa atende 5 vezes o que ‘deveria’


Mais de 80% dos pacientes que passaram pelo Pronto-Socorro Municipal “Erasmo Peixoto” de janeiro até abril poderiam ter sido atendidos em postos de saúde. Os dados são da coordenação de urgência e emergência de Tatuí, que revelou, nesta semana, estatística “impressionante”.
De acordo com o responsável pelo setor, o enfermeiro Jerônimo Fernando Dias Simão, 80,06% das pessoas que passaram pelo ambulatório nos quatro primeiros meses do ano poderiam ter resolvido seus problemas de saúde na rede básica do município.
Durante o período, somente 19,94% dos que passaram por consultas médicas estariam no perfil de pessoas a serem atendidas no pronto-socorro. Isto significa que, para cada paciente que deveria, de fato, ser acolhido no PS, outros quatro procuram o serviço e acabam sendo atendidos. O ambulatório é destinado, especificamente, a casos de “urgência e emergência”.
“Ele é para resolver problema na hora”, disse Simão. A exceção são pacientes crônicos ou que passam por tratamento, como os encaminhados pelo PAD (Programa de Atendimento Domiciliar).
Os casos de intercorrência que fogem das urgências e emergências (acidentes, fraturas e infartos) incluem engasgamento e falta de ar, muito comuns em idosos. Por conta disto – e pelo volume de procura –, a coordenação de urgência e emergência faz o atendimento baseado em uma classificação de risco. Os pacientes são divididos em cores, sendo azul, verde, amarelo e vermelho. A divisão é feita por enfermeiros durante o chamado acolhimento. A classificação de risco é determinada pela queixa do paciente.
Das 43.314 pessoas atendidas no pronto-socorro durante os quatro primeiros meses do ano, apenas 2,47% estavam classificadas como “vermelho”. O restante dos 19,8%, os 17,47%, eram pacientes “amarelos” – pessoas que exigem atendimento de urgência e que podem “evoluir para emergência”.
Os pacientes “azuis” (que apresentaram nervosismo, solicitaram troca de receita, curativos, controle de pressão arterial, etc.) e “verdes” (com sintomas de gripe, dores musculares, entre outros) somaram mais de 80% dos atendimentos feitos no período.
A procura pelo pronto-socorro por pessoas que não necessitavam de atendimento de urgência e emergência tem um efeito colateral e duas explicações. Segundo a secretária municipal da Saúde, Kátia de Campos Abuchaim, muitos pacientes têm visão errada da função do ambulatório.
“Na verdade, o pensamento não só do tatuiano, como do brasileiro, é de que é muito melhor ir ao pronto-socorro do que a uma UBS. As pessoas têm noção de que chegam lá e fazem todos os exames. Elas intitulam como um ‘check-up’”, disse.
De acordo com a secretária, a outra causa para o problema é a facilidade de atendimento que os tatuianos teriam atualmente (tanto no “PS” como nas UBSs). O efeito colateral disto seria a falta de ação preventiva. “As unidades básicas estão aí para trabalhar a prevenção, um pronto-socorro é para tratar urgência e emergência. É este o detalhe que os pacientes esquecem”, frisou Kátia.
Segundo ela, pensando num “imediatismo”, as pessoas deixam de procurar as UBSs e passam a ir ao pronto-socorro. A demanda pelos pacientes que não necessitam de atendimento de urgência e emergência provoca superlotação no ambulatório.
Seria neste ponto em que surgiriam as reclamações em relação ao pronto-socorro – duas, em específico, tratam da demora no atendimento e do tempo das consultas (a queixa é que elas são “muito rápidas”).
Segundo explicou Simão, o tempo de espera de um paciente vai variar conforme a prioridade do caso dele – triado, anteriormente, por um enfermeiro. O coordenador explicou que a ordem de chamada por parte do médico obedece ao critério da necessidade. “Muitas pessoas têm dúvidas quanto à espera do idoso e da criança, mas nós trabalhamos com o agravo à saúde. Lógico que tentamos agilizar, mas, nos casos de idosos e crianças, eles são chamados conforme a queixa principal”, falou.
De acordo com ele, é o “agravo à saúde” que vai fazer com que o paciente passe mais rápido, ou não, junto ao médico. Da mesma maneira, é a alta procura por pacientes que poderiam ser atendidos em postos de saúde que faria com que as pessoas classificadas como casos “azuis” e “verdes” passassem mais tempo na fila de espera. “Essa demora causa um descontentamento da população”, comentou Simão.
Na avaliação de Kátia, este é um problema que só poderá ser solucionado com conscientização, levando-se em consideração os dados já coletados (e compilados) pela secretaria atualmente. A principal queixa de pacientes que procuraram o pronto-socorro é quanto ao número de médicos.
“Eles querem mais profissionais para que o atendimento seja mais rápido”, revelou o coordenador dos serviços de urgência e emergência. O resultado faz parte de avaliação interna feita pelos profissionais do ambulatório.
“A resposta que temos de dar para essa queixa é que nós trabalhamos com o número máximo de médicos pela capacidade física da unidade”, comentou Simão. O Pronto-Socorro Municipal “Erasmo Peixoto” conta com quatro médicos, sendo três deles somente para atendimento de consultas e um para emergências. “Hoje, o atendimento não para mais com as chegadas de emergência, mas estamos com a capacidade máxima de médicos pela nossa estrutura física”, adicionou.
Simão afirmou que o município não tem como aumentar o número de médicos. O prédio atual do “PS” conta com três consultórios e o setor de urgência e emergência. “Não temos como colocar mais profissionais lá. Não vamos colocar um médico a mais para atender no corredor”, argumentou.
Dos três médicos que fazem consultas, um dedica-se exclusivamente a atender pacientes classificados como “amarelos” (casos urgentes). “Apesar de a demanda ser menor, esses pacientes podem evoluir para emergência”, justificou Simão.
Os pacientes triados como “amarelos”, em geral, apresentam falta de ar, hipertensão moderada, dor aguda ou têm problemas de alergia que podem ser decorrentes de picadas de insetos ou infecções por mordedura.
Por priorizar pacientes classificados como “amarelos” e “vermelhos”, o sistema de atendimento atual do pronto-socorro faz não só com que os que estejam na condição de “azuis” e “verdes” demorem a ser atendidos, mas que as consultas sejam mais breves. “Esta é a segunda queixa dos nossos pacientes: eles disseram que o médico atende muito rápido”, revelou Simão.
Neste ponto, segundo ele, muito pouco pode ser feito. “Nós fizemos um cálculo e verificamos que, se cada médico demorar 20 minutos para atender um paciente, ele vai conseguir atender somente três pacientes por hora”, falou. A matemática, neste caso, “desfavoreceria” a população. Para atender à média de 500 pacientes por dia, o ambulatório precisaria ter quase sete médicos.
Com os atuais três profissionais, 216 pessoas podem ser atendidas por dia, num prazo de 24 horas, menos do que o dobro do número que é registrado diariamente. “Eu teria que apenas atender 216 pacientes em consulta como a população quer quando pede mais tempo”, disse Simão.
O número de atendimento do pronto-socorro é considerado alto em função de ele ser regional. “Nós, muitas vezes, atendemos outros municípios, como Quadra e Cesário Lange”, disse a secretária municipal da Saúde. A esses números são acrescidos pacientes que se envolvem em acidentes nas rodovias da região.

FALTAS ÀS CONSULTAS

Enquanto no pronto-socorro é o número de atendimento “não prioritário” que preocupa, nas UBSs e no Cemem (Centro Municipal de Especialidades Médicas), a situação é outra. O índice de faltas às consultas agendadas atingiu 23,87% em apenas cinco dias. De 23 a 27 de abril, a Secretaria Municipal da Saúde computou 1.328 faltas de pacientes aos 5.564 agendamentos feitos junto às UBSs e ao centro de especialidades.
Na opinião de Ângelo César Carvalho, assessor da unidade básica de Tatuí, o número de faltantes se deve ao “aumento da oferta”. “Nós temos trabalhado, desde o princípio, com o prefeito Luiz Gonzaga Vieira de Camargo, para aumentar o atendimento. Há um tempo, era muito difícil conseguir uma consulta”, falou. Segundo disse, o tempo de espera chegava a seis meses.
De acordo com Carvalho, a dificuldade no agendamento devia-se à falta de profissionais, como clínico geral, ortopedista, pediatra, entre outros.
A questão foi sanada com a contratação de novos médicos. “Eu me lembro, até um tempo atrás, que nós tínhamos apenas um clínico em cada UBS. Hoje, nós estamos com três, dependendo da unidade básica de saúde”, comentou.
Com mais profissionais, o número de atendimentos teria triplicado. “Como existe facilidade, muitos pacientes não comparecem à consulta agendada, sabendo que, amanhã ou depois, conseguiriam remarcar”, disse.
Segundo ele, o tempo médio de agendamento para uma consulta com clínico geral é de quatro dias. Carvalho também diz que o percentual de faltas tem diminuído. No ano passado, chegou a 32%. “Na verdade, conseguimos reduzi-lo, aos poucos, ao reativar o ‘Disque-Saúde’”.
Neste ano, o maior percentual de faltas ocorreu em março, com 26%. A queda veio por conta do trabalho do Disque-Saúde, no qual funcionários da secretaria ligam para os pacientes, um dia antes da consulta, lembrando-os do compromisso. “Ele (o serviço) estava um pouco adormecido. Tinha algumas coisas a melhorar. Nós o mudamos e o reativamos”, disse Carvalho.
Com o serviço, a saúde registrou queda de 2,13% no número de faltas de pacientes de março a abril. Parte deles, segundo o assessor, deixa de comparecer às consultas por conta de esquecimento. “Nossos pacientes são muito idosos, alguns fazem tratamento contra o diabetes, outros são hipertensos. Então, o esquecimento é comum. Não podemos dizer que um paciente só não vai à consulta porque sabe que amanhã ele pode remarcar”, salientou Carvalho.
Por conta disto, funcionários do Disque-Saúde orientam a população a colocar lembrete em algum local visível da casa. “Pedimos para colocar na geladeira, ou na televisão, ou em algum lugar em que a pessoa possa ver. Assim, ela não vai se esquecer, porque isso ocorre com muita frequência”, comentou o assessor.
Atualmente, as consultas médicas são atendidas por 157 profissionais, sendo 49 deles especialistas que atendem no Cemem. “Temos todas as especialidades. Nós só não temos, em Tatuí, a neurologia pediátrica”, afirmou Carvalho.
Segundo ele, o prazo de agendamento é considerado curto. Esse tempo deve-se ao trabalho de triagem realizado por enfermeiros dos postos de saúde. “Esse é um trabalho que foi ‘inventado’. Não existe em nenhum outro lugar”, comentou.
A triagem surgiu como determinação da secretária municipal da Saúde. “Ela estava preocupada com o tempo de agendamento e com as faltas. Por isso, decidiu colocar dois enfermeiros por unidade. Antes, era somente um”, disse Carvalho.
O segundo profissional fica responsável pela triagem dos casos, agilizando o encaminhamento para o clínico geral e mantendo a média de atendimento por conta dos “encaixes” – atendimento de pessoas não agendadas.
Conforme Carvalho, o paciente que passa pela triagem pode ser atendido no mesmo dia, ou, no máximo, no dia seguinte (no caso de encaixe). “Fazemos isso porque sabemos que teremos pelo menos 20% de faltosos”, disse o assessor. “O interessante é que esse paciente foi o faltoso do dia anterior”, adicionou.
Segundo a secretária da Saúde, a falta não prejudica somente o município – que registra gastos com pagamento de médicos que não atendem pacientes –, mas a própria população. “Nosso maior trabalho é a conscientização das pessoas”, disse ela. Muitas, além de faltar, não aderem ao tratamento corretamente. “Isso provoca um transtorno, e quem perde somos todos nós”, finalizou.
                                                                                                         oprogressodetatui.com.br

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