quarta-feira, 11 de abril de 2012

Museu Paulo Setúbal torna-se ponto de cinema

Encerra-se hoje, quarta-feira, 11, a série de exibições de filmes do programa “Ponto MIS” no Museu Historiográfico “Paulo Setúbal”. A iniciativa da Secretaria de Estado da Cultura, por meio do Museu da Imagem e do Som, visa propagar o cinema, exibindo curtas e longas-metragens, e fomentar o interesse do público pela sétima arte. O lançamento do programa no município aconteceu dia 4, com a presença do diretor Ricardo Elias.
Elias assina a direção do longa-metragem “Os 12 Trabalhos”, lançado em 2007. O filme compõe a programação do Ponto MIS local junto com o curta-metragem “5 Minutos”, de Quico Meirelles (2011). Na quarta-feira, além de assistir à primeira exibição das duas obras no município, o público participou de debate com o diretor do longa-metragem.
“É importante que o público tenha contato com o cinema brasileiro para poder entender e vê-lo de uma forma diferente. Isso proporciona um exercício muito bom, uma prática de ver um audiovisual falado em português, que não seja de novela ou das referências em dramaturgia que a gente tem na televisão”, comentou Elias, antes do início do debate.
O filme dele, “Os 12 Trabalhos”, tem duração de 90 minutos e é indicado para pessoas de todas as idades. Heracles, o personagem principal, interpretado por Sidney Santiago, é um jovem negro que vive na periferia de São Paulo. Ele procura ocupação profissional depois de sair da antiga Febem - atualmente, Fundação Casa.
Depois de receber uma indicação, o protagonista passa a trabalhar como motoboy. No entanto, para ser efetivado na função, precisa passar por período de experiência no qual deve realizar 12 tarefas na cidade. O enredo faz clara referência à mitologia grega, segundo a qual Hércules, filho de Zeus, precisa cumprir 12 tarefas complexas para tornar-se imortal.
A passagem dá origem ao termo “hercúleo”, utilizado pelo diretor para descrever a saga de Heracles no longa-metragem. “Os jovens das classes C, D e E são muito estigmatizados, principalmente na periferia de São Paulo. Se eles quiserem mudar de vida, tem que ser por meio de uma atitude hercúlea”, afirmou Elias no debate, após a exibição do filme.
Conforme a sinopse, atuando como motoboy, o personagem é levado a situações que envolvem preconceito, burocracia e a própria falta de malícia no novo serviço. “Trata-se de uma profissão com uma imagem negativa perante a maioria das pessoas”, comentou o diretor.
Por outro lado, Elias entende que os percursos feitos pelo personagem demonstram a exigência de conhecimento necessária à profissão. “O motoboy do filme passa por diferentes regiões e algumas têm grandes diferenças entre si, principalmente do ponto de vista econômico. O filme já foi exibido em mais de 30 países, e, em todos eles, as pessoas se surpreendem pelo gigantismo de São Paulo”.
Na opinião do diretor, a relação da trama com a mitologia ajudou a tornar o filme compreensível para públicos de diferentes países, apesar do contexto tipicamente paulistano. “Na Suíça, não tem motoboy, e eles entenderam a mensagem, porque, na essência, mostra a dificuldade do ser humano de se reinventar”, afirmou Elias. Para ele, a série de debates do Ponto MIS ajuda ainda mais a alcançar este resultado.
“Eu fiz uma sessão, hoje de manhã, em Paranapanema. Lá, o cinema mais perto está a duas horas, e a grande maioria das pessoas, gente de 30 anos, nunca tinha entrado em uma sala de cinema ou visto um filme projetado. Ali, com certeza, nenhum deles tinha visto um filme brasileiro”, explicou Elias.
Embora o entendimento sobre a mensagem principal do filme seja alcançado com facilidade, na avaliação do diretor, o teor dos debates varia muito conforme o tipo de público. “Em Paranapanema, eram basicamente adolescentes. Eles têm outra visão, ficam mais fascinados, querem saber como o filme foi feito, como ele é criado. Já em Tatuí, foi uma discussão muito mais social, até porque era um público adulto”.
Independentemente do tipo de debate que acontece, Elias os vê como uma etapa importante da produção cinematográfica. “A gente vê o olhar do outro sobre a obra da gente, que é o mais importante. A gente cria e tenta atingir alguma coisa, e é bom ver este resultado. O que instiga, o que não instiga, o que funciona, o que não funciona. Você vê a resposta da pessoa em relação ao que você criou. Isso é extremamente importante”, disse o diretor.
Ao final do debate, Elias comentou a admiração dele pelo fato de o Museu “Paulo Setúbal” estar localizado em uma praça. Antes da sessão, o cineasta aproveitou para descansar “com tranquilidade” na área verde. De acordo com ele, em São Paulo, isso não seria possível. “A gente tem que usufruir o que a cidade tem de bom, que não temos na capital”, comentou.
A introdução de atividades relacionadas ao cinema no museu do município é um dos pontos ressaltados pelo secretário Jorge Rizek, responsável pela pasta municipal da Cultura, Turismo, Esporte Lazer e Juventude. “É muito importante para o museu diversificar suas atividades. A gente tem como ponto principal a história da cidade e a parte literária, por causa do patrono”, comentou o secretário.
Para ele, o cinema possui uma relação muito forte com a literatura, e, por isto, tem potencial para ser explorado junto com as atividades cotidianas do “Paulo Setúbal”. Rizek entende a trama de um filme como uma obra literária com recursos visuais. “É importante para nós termos conseguido este ponto do Museu da Imagem e do Som. Isso vai trazer uma força muito importante para a nossa cultura, essa diversificação de atividades”, afirmou.
O secretário destacou também o fato de o município já possuir uma sala de cinema particular. “A maioria dos municípios não tem este recurso”, comentou. O propósito da Prefeitura, de acordo com ele, é fazer com que as pessoas gostem cada vez mais de ver filmes. “Isso tem que ser provocado nas crianças, nos alunos das escolas”, disse Rizek. Depois de cada sessão, os participantes são convidados a responder um questionário sobre os filmes.
O programa Ponto MIS encerra-se hoje, com a exibição de “5 Minutos” e “Os 12 Trabalhos”. As sessões acontecem às 9h30 e 14h30. O Museu “Paulo Setúbal” está localizado na praça Manoel Guedes (Praça do Museu), 98, no centro. O telefone para contato é 3251-4969.
Conforme Rizek, em breve, o museu deve apresentar novas atividades relacionadas ao cinema por meio do projeto “Uma Noite no Museu”. “Temos um projeto para exibir um filme e apresentar um concerto nas noites de quinta-feira”, informou.
A parte musical ficaria a cargo dos grupos artísticos do Conservatório. “Nós temos que provocar mais situações como o Ponto MIS e pretendemos repetir este tipo de experiência mais vezes”, concluiu Rizek.

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