sábado, 24 de março de 2012

Município inicia testes da ‘Escola Virtual’


O projeto de tecnologia educacional, que introduziu a informática na grade curricular do ensino tatuiano, vem, ao longo dos anos, sendo ampliado pela Secretaria Municipal da Educação. Dos laboratórios, implantados a partir de ideia do educador Wilson Roberto Ribeiro da Silva, até as lousas digitais – equipamentos que vêm tendo uso massificado –, a proposta tem crescido não só em dispositivos (mais recentemente com a aquisição de “tablets”), mas em conceitos. Todos eles, de uma maneira ou outra, são considerados inovadores.
O mais recente – e que já está em fase de testes desde meados de novembro do ano passado – é o que cria a “Escola Virtual de Tatuí”. A proposta incluída no projeto é idealizada pelos professores Leonardo de Moraes e Francisco Antonio Luciano de Campos, que atuam na Dape (Divisão de Aperfeiçoamento e Pesquisa Educacional), da pasta municipal. Os dois trabalham num formato que permitirá oferecer cursos de qualificação por meio da internet.
A possibilidade começou a ser cogitada em 2011 e colocada em prática no final daquele mesmo ano. “Nós começamos a formatar a ideia no final do ano passado”, comentou Moraes. A “Escola Virtual” utiliza o mesmo mecanismo dos chamados cursos de EAD (ensino à distância) já oferecidos por faculdades e universidades públicas e particulares.
O conceito baseia-se em fornecer, aos educadores e demais profissionais de ensino, capacitação à distância. “Nossa meta é criarmos um método com o qual possamos atender todos os professores”, disse.
Em Tatuí, a rede municipal está próxima de atingir, conforme Moraes, 600 profissionais.
O desafio atual é conseguir reunir todos para oferecer a eles o mesmo tipo de treinamento, orientação e cursos de aperfeiçoamento. Com o uso da internet, a Dape pretende diminuir as distâncias e facilitar não só a vida dos educadores, mas criar um sistema que possibilite a troca de informações entre eles.
A interação poderá ser, conforme adiantaram os “inventores”, tanto via texto, com conteúdos disponibilizados que poderão ser descarregados no PC dos próprios professores, como por videoconferência.
A opção por um ambiente virtual deve permitir que todos os professores tenham acesso aos conteúdos de aperfeiçoamento. Os cursos poderão ser frequentados em dias e horários nos quais os educadores estejam disponíveis.
A flexibilização deve não só dar condições de melhor aproveitamento para os professores, como permitir que a secretaria faça avaliação mais personalizada da participação deles nos cursos de aperfeiçoamento, treinamento, entre outras possibilidades. O projeto tatuiano prevê, além da autonomia ao educador, a certificação dos participantes.
Nos moldes atuais, os professores que recebem treinamento têm de se deslocar para outros ambientes que não o escolar para participar das capacitações. Este detalhe, em determinadas situações, pode interferir no resultado final, que é a qualificação da formação do educador, uma vez que alguns deles podem encontrar dificuldades em conciliar as agendas para frequentar os cursos e oficinas. “Muitas vezes, fica difícil para o professor se deslocar, para fazer uma capacitação. Às vezes, ele até quer, mas não consegue”, justificou Moraes.
De acordo com ele, a intenção da Escola Virtual é atender o professorado que tem dificuldades, dando a ele a opção de fazer o curso na escola e em outros ambientes. “Como será totalmente on-line, os professores poderão fazer as atividades da casa deles, a qualquer hora”, comentou o coordenador do setor de informática da Dape.
O novo sistema será totalmente independente do atual “Portal Siged (Solução Integrada de Gestão Educacional)”, no qual a secretaria divulga ações, permite acesso ao sistema administrativo (uso interno) e mantém canal de comunicação com os pais dos estudantes. “Trata-se de outra coisa”, disse Moraes.
A criação da escola que foge aos padrões convencionais está a cargo da equipe de informática da Dape. É ela quem vai formatar o “layout” (visual), o modo de interação e qual tipo de tecnologia o sistema vai utilizar.
Por enquanto, a perspectiva é de que a Escola Virtual faça uso de uma rede própria, que disponibilizará conteúdos por meio da rede mundial de computadores. “Serão oferecidos exatamente os cursos os quais os professores estiverem precisando”, destacou Campos.
A título de exemplo, ele citou as regras da nova ortografia da língua portuguesa – prevista em acordo entre os países de língua lusófona e obrigatória a partir de dezembro deste ano.
“Vamos respeitar aquilo que o professor da rede municipal estiver necessitando”, disse Campos. A intenção da escola on-line é que ela disponibilize cursos que possam ser utilizados por todos os educadores, de maneiras peculiares.
“Não somente os que servem para uns e para outros, mas os que possam ser aproveitados por todo mundo”, citou ele, que já iniciou, com Moraes, os testes para o funcionamento do novo sistema da pasta de ensino.
A secretaria tem, atualmente, de driblar alguns obstáculos para colocar o projeto em prática. Um deles diz respeito ao sinal de internet, que, para que a videoconferência funcione sem atropelos, deve passar por mudanças – ser melhorado.
“Atualmente, estamos testando que modelo aplicar”, adiantou Moraes. De acordo com ele, existem vários modelos de ensino à distância, os quais serão analisados para, posteriormente, serem aplicados no município.
O intuito dos profissionais da Dape é o de não oferecer custos aos cofres públicos. “Existem vários modelos, alguns simples, outros não tão simples. Estamos procurando utilizar um que não gere custo exorbitante para a Prefeitura”, citou Moraes.
O coordenador de informática da Dape explicou que a intenção da secretaria é utilizar material e linguagem de uso livre. “Apesar da ideia, nós ainda não chegamos à definição de onde isto tudo vai ser hospedado”, comentou Moraes, referindo-se aos conteúdos que serão disponibilizados.
Em princípio, os planos são de utilizar a infraestrutura que já existe dentro da própria Prefeitura. “Como é um projeto que começamos em novembro, estamos ainda ‘meio verdes’. A ideia nós temos. Agora, o céu é o limite”, afirmou o coordenador de informática.
Os primeiros testes do sistema foram realizados por Moraes e Campos na sede da Dape, em funcionamento na praça Paulo Setúbal. Os dois verificaram como se “comportava” a comunicação via videoconferência por meio da internet. “Fizemos aqui, um de frente para o outro, porque temos que prever quanto tempo vai levar para que o sinal chegue de um local para o outro”, disseram.
Ao mesmo tempo em que é “democrática”, com relação aos professores, ao permitir a eles que tenham acesso aos conteúdos de forma mais autônoma, a Escola Virtual de Tatuí é mais “prática” em se tratando das avaliações e do acompanhamento do rendimento dos educadores por parte da Secretaria de Educação.
“Tem que existir todo o processo, que passa pela avaliação dos professores”, comentou Moraes. Segundo ele, o sistema vai permitir que a pasta tenha acesso a todos os dados, verifique se o educador cumpriu o cronograma do curso e se está, como todos os demais, participando de fóruns e atividades.
“Vamos saber também quem é o professor que está participando, em qual curso ele está matriculado, qual é o andamento e se o curso está ou não concluído”, destacou o coordenador de informática. Segundo ele, a iniciativa dará mais agilidade no controle referente aos treinamentos dos profissionais da área. “Acredito que tudo vai dar certo. Até o final do primeiro semestre, creio que nós vamos conseguir colocar o sistema em operação”, adiantou.
A complexidade do sistema, segundo Campos, passa por diversos detalhes e inclui os estudos de viabilidade para que todos os recursos atualmente disponíveis funcionem. A previsão da Dape é de que a Escola Virtual tenha capacidade de agregar não só textos, mas vídeos e conteúdo interativo. “Será um modelo livre para o professor. Ele pode fazer as aulas ou acessar os conteúdos de qualquer lugar, basta ter um computador conectado à internet”, disse Moraes.
A intenção da divisão é, ao tornar o conteúdo mais interativo, maximizar o uso da tecnologia que já é comum aos professores – e, por consequência, aos alunos. “A tecnologia está na mão de praticamente todo mundo”, comentou o coordenador de informática.
Desta forma, ao criar um ambiente em que o educador possa visitar com frequência, a Dape promove integração entre o conteúdo pedagógico e, por exemplo, as redes sociais. “A educação tem que trabalhar em cima disso. Vejo como uma necessidade da educação, de forma geral, estar integrada às redes sociais”, afirmou Moraes.
Este “leque de opções” representa novo ambiente de inter-relação entre professor e aluno, os quais, conforme Moraes, podem encontrar-se nas redes sociais. “Muitas vezes, o aluno também está na rede social. Por pesquisa, é comprovado que o aluno (que passa quatro horas estudando) que sai da escola passa mais quatro horas na internet. Ele não está somente em casa, estudando, vendo TV”, disse. Desta maneira, o professor tem de estar, segundo o coordenador, apto a aprimorar conhecimento para que possa enriquecer as aulas.
Este é o caso do “Lego Education”, implantado na rede municipal no final de 2008 e que busca tornar as aulas mais dinâmicas. Trata-se de projeto voltado à área tecnológica. Em Tatuí, ele abrange os dois ciclos do ensino fundamental (do 1º ao 5º ano e do 6º ao 9º). O “Lego Education”, conforme explicou a coordenadora do projeto, Juliana de Farias Fazzane, incentiva principalmente as crianças o trabalho em equipe e a organização.
A partir dos ensinamentos e princípios trabalhados em sala de aula pelo professor – que passa por capacitação –, os alunos conseguem, conforme Juliana, perceber o quanto retêm de referências tecnológicas.
“É possível perceber, também, o quanto isso facilita a nossa vida”, comentou. No trabalho em equipe, as crianças aprendem os conceitos tecnológicos que envolvem as diversas áreas, como o meio ambiente, a matemática e até mesmo a língua portuguesa. “Além dos recursos tecnológicos, conseguimos voltar no tempo e ver como era antes de termos esses recursos tecnológicos, como está agora e qual foi o processo evolutivo dessa criação”, afirmou.
O “Lego Education” tem conteúdo diferenciado para cada um dos ciclos de ensino. No primeiro ciclo do ensino fundamental (do 1º ao 5º ano), o projeto é trabalhado pelo próprio professor, que tem aulas a cada 15 dias e decide como vai encaixar o conhecimento apreendido na disciplina dele. “Normalmente, o projeto acontece nas aulas de matemática”, explicou Juliana. No segundo ciclo, o professor de informática é quem leciona a “aula Lego”. Conforme a coordenadora, as aulas são ministradas em parceria com outro professor, que pode ser da área de geografia, de história ou de matemática. “Por envolver conceitos de robótica, de computação, é que este ciclo exige a presença de um professor de informática”, destacou Juliana.
O conteúdo do “Lego Education” é sempre oferecido ao alunado dentro de uma disciplina. “Precisamos colocá-lo dentro da grade curricular de ensino. Então, normalmente, ele (o projeto) está focado na matemática, porque esta trabalha muito com raciocínio lógico, mas também nada impede que ele entre em aula de história ou geografia”, comentou. Trata-se de projeto interdisciplinar que foi adquirido pelo município.
O “Lego Education” é composto por kits de peças Lego (montáveis), que são distribuídos em algumas escolas da rede municipal. O projeto inclui a capacitação dos professores que vão trabalhar com as peças. “Nós os acompanhamos na sala de aula e vemos como está sendo o trabalho”, comentou Juliana. Quando há alguma dificuldade, a coordenação trata de ajudar o educador.
De uma maneira geral, auxiliar o professor é o que a Dape pretende com a criação da “Escola Virtual”, como está sendo chamado o projeto de capacitação dos funcionários da educação via web. Para Maria Amélia Dalmatti Lima, responsável pela divisão, a implantação do sistema é o próximo desafio da Educação tatuiana. O município, o primeiro do interior a disponibilizar lousas digitais, quer agora criar um modo de oferecer aos seus funcionários a formação à distância.
O projeto, conforme Maria Amélia, vai complementar a nova jornada do professor, chamada de HTPE (hora de trabalho pedagógico escolar). “É uma hora em que o professor vai ganhar para estudar”, comentou. Os educadores do município têm, ainda, de participar de HTPC (hora de trabalho coletivo), na qual são discutidos os problemas da escola e oferecidos cursos.
A grande diferença entre as horas e o sistema on-line é que o professor poderá realizar as atividades obrigatórias de maneira mais flexível. Tanto na HTPE como na HTPC, a presença dos educadores num mesmo horário e mesmo local é essencial. “Agora, com essa proposta, o professor poderá, da própria escola, acessar o conteúdo, ou fazer uma aula conosco”, descreveu Maria Amélia.
O desafio da equipe, segundo ela, vai resultar num trabalho sem precedentes em se tratando de ensino público. Com o sistema, a Dape vai dispensar o deslocamento dos professores e a necessidade de ter, sempre que houver reuniões, um espaço amplo – para poder abrigar todos os educadores. “Nós poderemos interagir com os professores na própria escola”, afirmou.
A Escola Virtual de Tatuí está, conforme Maria Amélia, sendo formatada para permitir, além de cursos, oficinas e encontros, a realização de palestras. “O sistema já está em gestação. Nós testamos, inclusive, uma videoconferência aqui dentro. Agora, só precisamos melhorar a nossa internet para que a comunicação seja instantânea ou não demore tanto”, citou a coordenadora.
Melhorias também estão sendo implementadas no ensino tatuiano com as lousas digitais, adquiridas pelo município nos anos de 2008 e 2010. Os equipamentos, além das Emefs (escolas municipais de ensino fundamental), já estão à disposição das creches municipais, como a “Amadeu Fragnani”, na vila Santa Luzia.
As lousas são, conforme informou a Dape, uma projeção da tela do computador em outra tela, a qual “transforma em um mouse o dedo do apresentador ou qualquer objeto que a toque”, descreveu Campos, por e-mail.
De acordo com ele, as lousas digitais funcionam de maneira diferente da descrita em reportagem na semana passada. Os equipamentos são dotados de canetas que, conforme corrigiu, servem somente para que “aqueles que utilizam a lousa (professores e alunos) saibam, visual e antecipadamente, a cor que vão utilizar, desde que estas estejam devidamente guardadas nos suportes com as cores correspondentes”.
“As tais ‘canetas’ são apenas objetos inertes, sem qualquer ação, mas com o formato de caneta. Os recipientes nos quais são guardadas, estes sim têm um sensor que vai dar a cor nos traços conforme é retirada a simulação de caneta”, esclareceu o professor de geografia, referindo-se ao trecho da reportagem no qual constava a informação de que cada caneta reproduzia na tela uma cor diferente.
Também segundo ele, as cores reproduzidas na tela dependem do acionamento de sensores. “Só há o sensor de cor, mas as ‘canetas’ são inertes, sem qualquer ação e muito menos pilhas”, descreveu. Conforme Campos, qualquer objeto ou mesmo o dedo se transforma em um mouse ao tocar a tela sensível da lousa. “Esta é a única ação do quadro interativo. Ao ‘sentir’ o toque sobre o quadro, em cima da imagem projetada pelo ‘datashow’ (equipamento de projeção), a tela ‘passa o comando ao computador’”.
Correções à parte, o “grande mérito” das lousas digitais do município é o ganho educacional que elas proporcionam. O alunado tatuiano, que beira os 11 mil (sendo 9.338 do ensino fundamental e pouco mais de 2.000 das creches municipais), quando interage com o equipamento, tem o privilégio de estar incluído num processo que visa não só promover a famigerada “alfabetização digital”, mas a formação de nova mão de obra.
“Todo o processo é muito importante porque prepara as crianças de hoje para o mercado de trabalho de amanhã”, comentou a secretária municipal da Educação, a professora Marisa Aparecida Mendes Fiúsa Kodaira. É exatamente esta “consequência” a ser abordada na última reportagem da série “Alfabetização Digital: Desafio a Ser Vencido” produzida pelo jornal O Progresso e que será publicada no próximo domingo, dia 1°.
                                                                                                      oprogressodetatui.com.br

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