A VE (Vigilância Epidemiológica), setor da Secretaria Municipal da Saúde, tem motivos de sobra para comemorar a chegada de 2012. A equipe completa, neste ano, duas décadas de combate à dengue, transmitida pelo mosquito Aedes Aegypti. Também no ano bissexto, a equipe divulgou uma vitória: a diminuição de 61,53% dos casos confirmados da doença ao longo de 2011 em comparação a 2010.
As conquistas foram divulgadas nesta semana pelo responsável pela informação, educação e comunicação da pasta municipal, Luís Felipe de Oliveira Rosa. Conforme ele, desde que foi iniciado, em 1992, o combate à dengue no município acontece de maneira contínua. “Ele nunca para”, destacou. O trabalho tem como principal objetivo a conscientização da população sobre a dengue e a eliminação dos criadouros do mosquito transmissor.
A equipe em Tatuí atua em duas frentes. Uma delas é o chamado trabalho de rotina, na qual os agentes de saúde fazem as visitas “casa a casa”; a outra são as palestras que acontecem em empresas e nas escolas públicas e particulares. No trabalho de rotina, os agentes visitam as casas para vistoria e transmitem orientações, de forma prática, aos moradores, para que haja a eliminação dos criadouros do mosquito.
O objetivo principal, mais que eliminar os criadouros, segundo Rosa, é transmitir conhecimento para que a população possa, de maneira autônoma, manter o município com a doença controlada. “Eles (os agentes) têm de passar, de transmitir esta ideia para a população”, comentou. Os moradores também recebem, durante a vistoria, orientações sobre os sintomas, como a doença se manifesta e que providências devem ser tomadas em caso de suspeitas.
O “time” da Vigilância Epidemiológica é composto por 18 agentes responsáveis por cobrir todo o município. Os funcionários dividem-se em dois grupos para as ações de campo. A divisão é realizada de acordo com as normas da Sucen (Superintendência de Controle de Endemias), do Estado de São Paulo.
De maneira simplificada, Tatuí está separada em áreas pela rua 11 de Agosto. “A parte de cima da 11 pertence a uma equipe, e a de baixo, a outra”, disse Rosa. Normalmente, cada área é coberta por oito agentes. “Eles atuam sempre em número igual”, declarou. A quantidade de funcionário depende da escala de trabalho. “Muda, às vezes, por conta de férias, licenças, mas, no geral, são oito funcionários em cada região”, adicionou.
Além das visitações, os agentes fazem vistorias nos pontos estratégicos, como são classificados os ferros-velhos, borracharias e os dois cemitérios municipais (Cristo Rei e São Judas Tadeu). O trabalho visa à eliminação das larvas do Aedes Aegypti. “São locais que podem se tornar pontos de criadouros”, explicou Rosa. Os pontos são visitados mensal ou quinzenalmente. O número de visitas que eles recebem depende da “periculosidade”.
As visitas às residências, segundo Rosa, também costumam variar em quantidade. Conforme ele, os agentes podem vistoriar diversas casas por mais de uma vez, num mesmo mês ou numa mesma semana. “Quando há a notificação de uma suspeita de dengue em determinada região, a orientação é que a equipe volte às casas para fazer um trabalho de orientação”, explicou. Neste caso, a tarefa dos agentes é de não só eliminar os criadouros, mas conscientizar os moradores que residem no entorno da casa suspeita.
A partir da notificação, a VE também faz o isolamento das residências localizadas no raio de nove quarteirões, monitorando a saúde dos moradores, como uma espécie de quarentena. “Também fazemos este raio de acordo com as normas técnicas da Sucen”, adicionou o responsável pela comunicação da Secretaria Municipal de Saúde. Este é o raio em que o mosquito Aedes Aegypti pode percorrer. O isolamento da área pode permitir aos agentes eliminar o mosquito doente e evitar a proliferação da dengue. O raio de ação pode ser maior ou menor que nove quarteirões.
Para fazer todos esses trabalhos, a equipe tatuiana conta com dois veículos, um para cada área. “Os veículos são apropriados para quantidade de pessoas (oito por equipe)”, sustentou Rosa. Tratam-se de duas peruas Kombi, nas quais a VE pode fazer o transporte de equipamentos, como os utilizados na nebulização. “Esta é uma ação que fazemos em último caso porque ele só vai atingir o mosquito alado. Ele não elimina larvas”, disse o responsável.
A nebulização, conforme explicou, é mais utilizada para conter epidemias. Em Tatuí, este tipo de trabalho é realizado nas regiões em que há pessoas com casos confirmados. “Vale lembrar que todos os trabalhos de combate à dengue, para acontecerem de forma correta e efetiva, dependem de informações”, afirmou Rosa. Segundo ele, é preciso que o suspeito procure um profissional de saúde para relatar os sintomas no prazo adequado. O tempo é de três dias.
Além de melhorar os sintomas, a notificação antecipada permite à Vigilância Epidemiológica dar início de forma mais efetiva aos procedimentos de contenção da doença, com a eliminação do mosquito e de criadouros. “Muitas vezes, as pessoas acabam tendo sintomas da dengue e não procuram o médico. E isto atrapalha, em muito, toda uma ação de combate”, frisou.
Para que haja o controle da dengue, Rosa sustentou que é preciso conscientização da população. De acordo com ele, a situação da doença pode agravar-se por conta de que muitas pessoas não procuraram um médico quando apresentam sintomas, e se curam sem o uso de medicamentos. “Quando o médico passa uma medicação, não é para curar a dengue, é, sim, para a pessoa não piorar. Portanto, é possível alguém contrair dengue e melhorar sem remédios”, disse. O problema, conforme ele, vem depois.
O paciente doente pode ajudar a propagar o vírus – e a doença – no caso de um mosquito não contaminado picar alguém com dengue. “Quando o médico não tem essa notificação, não fica sabendo. Há um risco de as pessoas muito próximas a quem está contaminado serem afetadas pela doença”, citou Rosa. Por esta razão, ele considera fundamental que a população saiba – e tenha consciência – dos sintomas apresentados pela dengue.
A pessoa contaminada, conforme o responsável pela comunicação, apresenta febre alta, dores no corpo, nas articulações, dor de cabeça e atrás dos olhos. “O paciente também fica sem disposição, e podem ocorrer enjoos, vômitos e diarreias”, enumerou. Também podem aparecer manchas na pele. A presença da mancha e a falta de coriza são indicativos de dengue e os principais fatores que ajudam a diferenciar a doença de uma gripe.
Este tipo de informação é fundamental, na avaliação de Rosa, para que o médico possa diagnosticar os sintomas como suspeita ou não de dengue. Outra recomendação é de que a pessoa comente com o profissional de saúde se esteve ou não, nos 15 dias anteriores aos sintomas, em locais e regiões que já apresentaram casos de dengue. “Devido aos sintomas serem muito próximos de outras doenças, essa informação vai permitir ao médico fazer um diagnóstico mais preciso do caso”, argumentou Rosa.
Também é vital que a pessoa com suspeita não faça, de jeito algum, automedicação. Os sintomas podem complicar-se ainda mais, por conta de que, em alguns medicamentos, como a Aspirina, há o ácido acetilsalicílico. A substância pode “transformar” o quadro da dengue clássica em dengue hemorrágica.
A dengue tem quatro sorotipos. As grandes epidemias, conforme Rosa, são provocadas pelo sorotipo 4. “Nós não tínhamos relatos dele nos últimos anos, mas ele ressurgiu e afetou muitas pessoas, mesmo as que já haviam sido contaminadas”, comentou. Neste caso, o risco ao paciente é ainda maior. “A pessoa quando tem a dengue, de qualquer tipo, pela primeira vez, cria uma resistência àquele sorotipo. Mesmo que seja picada por um mosquito que transmita aquele sorotipo, ela não pega dengue. Mas, ainda restam outros três que ela pode pegar, e estes podem causar uma complicação”, disse.
A dengue hemorrágica pode surgir de diversas maneiras, que vão desde a saúde da pessoa estar debilitada à possibilidade de uma segunda contaminação por um sorotipo diferente. “A dengue do tipo hemorrágica não vem com um sorotipo específico, mas ela pode ser consequência de agravamento do quadro tanto de saúde como do contato com a pessoa”, destacou Rosa.
Em Tatuí, não há a definição da predominância de sorotipo. Os exames encaminhados ao Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, não estabelecem qual é o tipo de vírus. “O laboratório, quando faz o exame, estabelece se é ou não dengue. Na verdade, acreditamos que o sorotipo que está prevalecendo nesta região do Estado de São Paulo é o tipo 2”, comentou.
A não identificação, segundo ele, está relacionada com a baixa quantidade de casos confirmados e com o alto número de exames que o instituto tem – o único órgão oficial certificado no Estado a fazer a confirmação de casos de dengue. “A divulgação do sorotipo é mais comum em regiões com maior incidência de notificações e casos confirmados, como Ribeirão Preto”, disse Rosa. Tatuí não conta com este diferencial por estar fora da área de epidemia.
A notificação dos casos é feita a partir de dois exames, sendo um mais rápido e outro, mais demorado. O primeiro é o chamado “teste rápido”, que também é feito por meio de coleta de sangue. “A diferença é que o teste pode ser realizado aqui mesmo na cidade, e que o resultado sai mais rápido”, explicou Rosa. Outra vantagem é que a equipe pode adiantar suas ações no caso de haver suspeita. No entanto, o teste rápido não elimina o segundo exame. “Ele não confirma o caso, mas nos dá uma luz”, argumentou.
O paciente notificado, ou diagnosticado com dengue, não precisa necessariamente ficar internado. A permanência ou não dele num hospital vai depender da avaliação médica e do quadro da doença.
Quem fica em casa, deve, além de cuidar da saúde, evitar deslocar-se para outras regiões. “Não adianta nada nossa equipe estar na casa dela, fazendo os trabalhos em determinada região, se ela vai estar na casa de um parente em outra região”, afirmou Rosa.
O cuidado neste tipo de controle, na avaliação do funcionário da Saúde, é o que permitiu a diminuição dos casos registrados no município. Em 2010, a VE contabilizou 26 casos confirmados, sendo 17 importados e 9 autóctones (contraídos na cidade). No ano passado, 2011, foram 16 casos confirmados, sendo dez importados e seis autóctones, uma queda de 61,53% de um ano para outro.
A redução está relacionada também aos trabalhos de educação feitos juntos às escolas e empresas. Em 2011, os agentes percorreram, além de unidades de ensino e fábricas, espaços públicos, como o Mercado Municipal “Nilzo Vanni”, a Rodoviária Municipal “Pedro de Campos Camargo” e o Parque Ecológico Municipal “Maria Tuca”. “Visamos, justamente, locais em que ocorre uma concentração grande de pessoas para levarmos informações”, disse Rosa. “As pessoas já estão acostumadas a ver a dengue na TV. Agora, elas têm de se acostumar a realizar ações diariamente em prol do coletivo”.
Posted in: 