domingo, 11 de setembro de 2011

Organização permitiu o desenvolvimento



No início dos anos 80, Tatuí enfrentava os efeitos colaterais do desenvolvimento. A cidade, com 55.467 habitantes segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), crescia numa “velocidade vertiginosa” e via seus problemas sociais aumentarem na mesma proporção. Foi mais ou menos nesse período que o Jardim Santa Rita de Cássia teve sua fundação, a partir de um loteamento (negócio fomentado por um descendente de italiano).
Coincidência, ou não, nessa mesma época, o governo do Estado de São Paulo criou o projeto “Movimento de Organização Popular”. O intuito era permitir o desenvolvimento (e, a partir disso, melhorar a qualidade de vida das pessoas) dos municípios paulistas. Em Tatuí, o trabalho ficou a cargo de Ana de Lima, filha de Sílvio Silvério de Lima, então presidente do Cosc (Conselho Social da Comunidade) e principal responsável pela mudança do panorama de vida dos moradores do Jardim Santa Rita.
“Nós trouxemos esse projeto para Tatuí para que o governo, que estava distribuindo dinheiro para investimentos, pudesse destinar verba para o município”, explica a assistente social aposentada. Na época, Ana, funcionária da Secretaria Estadual da Assistência Social, era a responsável pelo planejamento das ações do Estado no município. O trabalho teve início não só no Santa Rita, mas em todos os bairros da cidade. Atenção especial era dedicada à vila Brasil e ao Jardim Gonzaga, que, na ocasião, também eram recém-formados.
As carências do Santa Rita, detectadas pela assistente social, nem de longe estavam ligadas a dinheiro – apesar de os terrenos no bairro serem, na época, os mais baratos da cidade (um lote custava em torno de R$ 2.000).
“O Santa Rita não era, nunca foi e não é, até hoje, o bairro mais carente da cidade”, destaca Ana. O problema que atrasava o desenvolvimento, lá, era a falta de água encanada e de luz elétrica. “Eles não tinham nada, falando em infraestrutura, mas tinham tudo, em se tratando de disposição para batalhar por melhorias”, lembra a assistente social.
A partir das visitas feitas por Ana, dos levantamentos das questões que incomodavam os moradores, criou-se uma sociedade de amigos de bairro. “Junto com eles, nós começamos a fazer reuniões semanais, nas escolas, para ajudar a população local a se organizar em prol de melhorias”, conta Ana. Os encontros aconteciam na Emef (Escola Municipal de Ensino Fundamental) “Magaly de Almeida Azambuja”. “Naquela época, a escola era menor, mas, ainda assim, tinha o espaço ideal para discutirmos as propostas e projetos”.
A opção pela escola foi também estratégica. Para se aproximar dos moradores, que se mostravam “arredios” à ajuda externa, a assistente social evitou frequentar igrejas. “Nós não queríamos ter ligação religiosa. Então, começamos a fazer as reuniões na unidade escolar”, disse. “A principal reivindicação deles era sempre água e luz”, adicionou.
Os primeiros residentes, que não passavam de 50 famílias, encontraram dificuldade em conseguir os benefícios por conta da ocupação, que ocorreu, segundo a assistente social, de forma desorganizada. “Os lotes não tinham uma demarcação correta. A pessoa chegava lá e, simplesmente, se assentava”, conta. Os moradores também sequer possuíam escrituras. “Não era possível conseguir água e luz porque não se podia regularizar a situação deles no fórum”, lembra.
A partir de um trabalho de levantamento de documentação, Ana, em parceria com o Cosc e a administração municipal da época, conseguiu regulamentar as moradias. “Foi então que conseguimos ligar a água e a luz”, conta a assistente social. Não contentes com o avanço, os moradores passaram a pleitear uma creche.
As primeiras conquistas aconteceram na gestão de Joaquim Amado Quevedo. O político foi eleito prefeito, pela primeira vez, em 1983, comandando o município até 1987. “Ele fazia questão de acompanhar o nosso trabalho e, em paralelo, começou a fazer o chamado ‘governo itinerante’, no qual ia de bairro em bairro”, cita Ana.
Quevedo, a assistente social e os representantes do bairro teriam ido pessoalmente, por diversas vezes, até a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e a sede da concessionária de energia elétrica da cidade - na ocasião, a Cesp (Companhia Energética do Estado de São Paulo). “Como eles precisavam mesmo das melhorias, porque o bairro estava crescendo muito, e de tanto cobrarmos, os pedidos foram atendidos”, conta Ana.
Ao passo em que o desenvolvimento avançava no bairro, a violência também crescia, especialmente por conta do tráfico de drogas. O problema, como conta a assistente social, não era exclusivo do Santa Rita, mas ocorria com maior intensidade no bairro. “Naquela época, ele começou a se tornar violento. Depois de um tempo, nós passamos a ter um certo receito de ir até lá, principalmente porque as reuniões aconteciam à noite”, lembra.
Para ganhar a confiança dos moradores e evitar conflitos diretos com os envolvidos com o tráfico, Ana procurava sempre ir ao bairro acompanhada de moradores. “Eu mantinha as pessoas que conhecia por perto, porque havia, sim, um certo medo em função da violência”, argumenta.
A intimidade com os moradores, que permitiu com que a assistente social e sua equipe desfrutassem da confiança deles, foi construída a partir do atendimento que a assistente social fazia numa sala, separada, na sede do Cosc. “Como o conselho atendia as pessoas de bairros carentes, distribuindo cestas básicas e roupas, a pedido de meu pai, eu passei a atender lá. Sempre que alguém aparecia, eu acabava conversando e ficando a par das necessidades e das dificuldades que eles tinham no bairro”, relembra.
Com o avanço da criminalidade, a distância entre o bairro e o centro da cidade passou a ser maior do que os cinco quilômetros de ruas. O deslocamento de viaturas policiais ou de socorro, por exemplo, era dificultado por conta da situação da Teófilo Andrade Gama. A principal via de ligação da cidade com o bairro era de “terra batida”. “Não havia asfalto, e, para chegar lá, era terrível. Piorava quando chovia, porque um trecho ficava todo inundado”, conta Ana.
Além da questão “logística”, o medo do crime organizado, que passou a se fixar no bairro a partir da formação de gangues de justiceiros, separou ainda mais os moradores do centro da cidade. Ana de Lima lembra que o tráfico conseguiu, aos poucos, tomar conta do Santa Rita. “O Cosc precisou confeccionar um emblema, para colocar em seu veículo, para se identificar e evitar ter problemas com quem quer que fosse”, comenta a assistente social.
Mais que perder a própria liberdade, uma vez que ficaram a mercê dos bandidos, os moradores do bairro passaram a ser discriminados. Esse foi o início da criação e propagação de um estereótipo (o de que seus moradores eram marginais) do qual o bairro levou anos para se livrar. Estereótipo, segundo Ana, errado. “O Santa Rita não era, nem na época, nem é hoje, o bairro mais carente, ou marginalizado”, argumenta.
Na década de sua formação, o problema maior de carência (que poderia gerar a marginalização por conta da falta de oportunidade) estava concentrado no Jardim Gonzaga e na vila Brasil. “A Fundação Manoel Guedes também, no seu início, era carente”, avalia. Para o Santa Rita, o que faltava era organização. “Eles (os moradores do bairro) tinham vontade, mas faltava alguém que pudesse dizer a eles como e por onde começar”.
Com organização, e driblando o tráfico, Ana, sua equipe e o Cosc passaram a ajudar os três bairros. Mas, segundo ela, nem todos eles conseguiram se desenvolver da forma que planejaram. “O Santa Rita foi o único que continuou a crescer, por causa do engajamento dos seus moradores. Nos outros dois, acho que faltou um pouco de dedicação”, analisa.
A diferença fundamental, para a assistente social, foi a vontade dos moradores de melhorar. “A cada conquista, eles faziam uma festa. Eu me lembro muito bem da alegria, quando eles conseguiram água e luz para o bairro”. A batalha pelos dois principais serviços durou, aproximadamente, 15 anos e foi, segundo Ana, resultado de esforço conjunto de todas as secretarias estaduais da época (Educação, Agricultura, Saúde e Assistência Social). “Nós fazíamos uma ação muito forte nos bairros da cidade”, lembra.
Acompanhando os benefícios, surgiram as igrejas de todas as denominações. “Isso ajudou muito os moradores, que passaram a receber orientações diversas”, declara Ana. Em paralelo, o Cosc começou a oferecer cursos de capacitação para os moradores e a disseminar a educação.
“A grande mudança, na minha opinião, foi a importância que eles (os moradores) deram para a educação dos filhos. Eles lutaram para isso e ainda continuam lutando. Eles sabiam da dificuldade que tinham, por conta da discriminação e falta de qualificação, e não queriam que isso se repetisse com os filhos”, comenta Ana.
Somando-se aos cursos, que permitiram renda extra para algumas famílias (com a venda de salgados e artesanatos), Ana de Lima iniciou no Santa Rita – e nos demais bairros da cidade – o projeto “Gerando Renda”. A iniciativa, também do governo do Estado de São Paulo, destinava pequenas quantias em dinheiro a pessoas que queriam investir nas mais diversas áreas. A dona-de-casa Benedita de Camargo Vieira esteve entre as beneficiadas.
“Me lembro como se fosse hoje quando recebi a proposta da ajuda. Eu fui a primeira pessoa procurada”, conta. A moradora do bairro, na ocasião, cuidava de uma senhora que tinha problemas de saúde. “No caso, eles viram que eu precisava mais do que a mulher que eu estava tomando conta”, relata. Num primeiro momento, Benedita disse que desconfiou do apoio. “Eu sou igual ao pessoal daqui. A turma da vila é assim: precisa ver para crer”, afirma.
Além de cesta básica, cedida pelo Cosc, Benedita ganhou as telhas de sua residência. “As pessoas diziam o que precisavam, e, nós, com base em uma avaliação, dizíamos se era possível ou não ajudar. A Benedita pediu para trocar o telhado da casa. Nós entendemos que isso a beneficiaria e concedemos”, disse Ana. Depois da colaboração, Benedita tornou-se voluntária permanente do Cosc. Atualmente, é o “braço direito” do conselho no bairro.
Dezenas de pessoas, além de Benedita, receberam ajuda. Os pedidos incluíram verba para compra de carrinho de cachorro-quente, aquisição de veículos, entre outros. “Nós atendemos pedidos de pessoas que achávamos que tinham condições de melhorar de vida. Demos dinheiro a elas, e o resultado foi fantástico. Algumas aproveitaram, outras nem tanto, mas a oportunidade, com certeza, mudou a vida de muitas das pessoas de lá”, declara Ana.
MARCAS
A fama do Santa Rita, de violento, não veio por acaso, ou por desconhecimento. O bairro, registrado no início dos anos 80 – após uma série de “desentendimentos jurídicos” (do empresário para com os oficiais da época) – no cartório de imóveis de Tatuí, começou a se destoar dos demais no quesito segurança pública. A região, por ser mais afastada do centro da cidade, contabilizou aumento de crimes violentos, ligados ao tráfico. Os acertos de contas entre os traficantes deram origem aos grupos de justiceiros.
Um dos mais famosos justiceiros que já passou pelo bairro, segundo a Polícia Civil, foi o boxeador Osvaldo dos Santos, 45, mais conhecido como “Carcará”. Do sobrado de sua casa, no Santa Rita, Carcará chegou longe no boxe, quase se profissionalizando. O comportamento agressivo, no entanto, não se restringiu ao ringue e fez com que ele chegasse longe também no mundo do crime, sendo conhecido pela polícia como justiceiro.
As duas atividades, porém, não tiveram um fim glorioso. A primeira foi interrompida por conta do envolvimento em dois homicídios, porte ilegal de arma, formação de quadrilha e roubo; a segunda, encerrou-se na madrugada do dia 14 de janeiro de 2008, quando ele foi brutalmente assassinado.
Carcará, que chegou a ter uma academia de boxe com seu apelido na cidade, foi preso pela primeira vez em novembro de 2003. Na ocasião, outras dez pessoas também foram detidas. O bando portava sete armas, num bar localizado na rua Benedito Nunes, no bairro, e foi indiciado por formação de quadrilha e ato infracional, uma vez que havia um menor de idade com o grupo.
O ex-pugilista era temido no bairro onde morava e intitulava-se justiceiro. Por este motivo, teve de ser transferido às pressas da Cadeia Pública de Tatuí - atualmente desativada - para Cesário Lange, na segunda vez em que foi detido. O motivo era que os presos do PCC (Primeiro Comando da Capital) teriam descoberto que Carcará havia matado um integrante da facção criminosa.
A fama de “matador de bandido” também se misturou à de chefe do tráfico de um dos bairros mais violentos do município e fez com que Carcará sofresse perseguições. Ainda assim, o ex-pugilista ganhou o respeito dos moradores, fazendo, por outro lado, a fama de “perigoso” do Santa Rita aumentar.
Especulações sobre a formação do loteamento, registrado por um empresário de Campinas, descendente de italiano, porém, sempre existiram. O Santa Rita, maior em área (corresponde a aproximadamente 45 alqueires) que a vila Dr. Laurindo, teria sido povoado por bandidos vindos de Osasco. O boato, na época, era de que Francisco Rossi, político renomado e prefeito daquele município, tinha enviado bandidos para a região, no intuito de povoá-la. Para muitos, isso não passa de “conversa fiada”.
Há também a estória de que o bairro havia sido fundado “involuntariamente” por Antônio Ermírio de Moraes. O empresário teria comprado alguns lotes e cedido a funcionários que participavam da construção de uma fábrica em Alumínio. De concreto mesmo (e real), está o registro feito pelo proprietário da área, no cartório de imóveis da cidade, que, naquele tempo, funcionava junto ao fórum da comarca.
A situação do bairro começou a mudar a partir da intervenção das entidades religiosas e sociais. O trabalho constante do Cosc, a primeira instituição a entrar no Santa Rita, fez e vem fazendo a diferença na vida de quem reside lá.
“Tudo era muito difícil antes. A gente não melhorava de vida. Eu, principalmente, tive que passar por necessidade primeiro para, depois, começar a conseguir algo na vida. E o que eu consegui foi com ajuda”, conta Benedita.
As conquistas, cada vez mais constantes na vida dos moradores, estão presentes nos diversos setores. Até mesmo no esporte. Recentemente, dois jovens do bairro, Lorraine Nicole Machado Ribeiro e Derlei Cavalcante de Lima, conquistaram medalhas no Campeonato Regional de Judô, realizado na cidade de Osasco, dia 3. Lorraine sagrou-se campeã e Lima ficou em terceiro lugar. Além de medalhas, os atletas conquistaram o direito de participar, neste sábado, 10, em São Paulo, da fase estadual da competição.
Os jovens, de 15 anos, são discípulos de Adriana Bento. A professora de judô, que está há 20 anos no esporte, teve o primeiro contato com os adolescentes no Cosc. “É muito bom colher esses frutos. Quando o aluno está indo bem, se destacando, a gente vê que o trabalho está sendo bem feito”, afirmou ela.
O avanço no esporte, fruto de investimento do Cosc, tem também participação do poder público, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, Turismo, Esporte, Lazer e Juventude, da Prefeitura. O Executivo, aliás, além de incentivar a prática esportiva – por meio de áreas de lazer –, tem concentrado suas ações no desenvolvimento daquela região.
No primeiro semestre deste ano, a Prefeitura fez a entrega de 172 casas populares, construídas no sistema de mutirão, no bairro Tanquinho (ao lado do Santa Rita). A região também ganhou a Escola Estadual “Alan Alves de Araújo”.
Os investimentos do poder público são tema da terceira reportagem da série “De Terra de Justiceiros a Região Valorizada”, que começou a ser publicada por O Progresso no início deste mês. A série especial, em cinco partes, tem como objetivo oferecer um “olhar diferenciado” ao leitor sobre a cidade.

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