Neste domingo, 3, às 17h, concretiza-se um trabalho de décadas no Lar São Vicente de Paulo. A nova capela da instituição, ampliada e com novo projeto arquitetônico, traz uma série de inovações que buscam, principalmente, oferecer conforto e garantir a acessibilidade aos usuários.
Voltado aos idosos assistidos pelo asilo e à comunidade católica, o novo espaço religioso é caracterizado pelo fato de ter sido construído somente com colaborações, como trabalho voluntário, doações e promoções para arrecadação de dinheiro.Embora a execução da obra tenha começado no final de 2008, o processo de planejamento teve início ainda na década de 70, durante as Missões Redentoristas, das quais o Lar participou. Na época, a instituição contava com uma capela reduzida, construída no ano de 1938.
“Houve um enorme crescimento da comunidade católica, e as pessoas passaram a frequentar mais as celebrações no Lar, o que fez com que um salão tivesse que ser anexado à capela”, explicou a diretoria do asilo.
Foi nessa época que nasceu a ideia de ampliação do espaço religioso. Entretanto, o principal impedimento para o projeto - e que o atrasou por décadas - era a situação financeira. “O desafio passava pela geração de recursos exclusivos na comunidade católica, pois, em hipótese alguma, podíamos onerar os recursos financeiros do Lar, que são destinados às necessidades dos assistidos”, completa a diretoria.
O passo efetivo para a viabilização do projeto aconteceu no início de 2008, com a criação da “Comissão Pró-Capela”. A finalidade dela seria captar recursos junto à comunidade, mediante a realização de promoções e eventos - como ações entre amigos, quermesses, jantares e campanhas -, para incentivar doações de recursos e materiais.
Presidente do Lar São Vicente na época, José Carlos Ribeiro da Silva foi um dos integrantes da comissão. Ele lembra que a primeira ação consistiu na venda de bilhetes para o sorteio de uma motocicleta. Depois, veio a “Noite da Pizza” e carnês de contribuição especificamente para a estrutura metálica e para a instalação da cobertura.
“O dinheiro que era arrecadado era relativamente limitado. Então, essa obra durou quase quatro anos, porque diversas vezes nós tivemos que interromper algumas etapas para angariar novos recursos e, depois, recomeçar”, afirmou o membro da comissão, que ainda atua em prol do projeto.
Atualmente, o trabalho da equipe “Pró-Capela” refere-se, principalmente, ao processo de finalização da contabilidade e ao planejamento das etapas restantes, que incluem a construção de uma sacristia, um escritório e banheiros. “Temos aí 99% do volume do projeto construídos”, comentou Ribeiro da Silva.
Além da arrecadação de dinheiro, promovida pela comissão, o projeto da nova capela contou com diversas outras formas de colaboração, como a doação de 60 bancos de madeira, feita pela Casa Pio X. Cada unidade serve para acomodar quatro pessoas. Desta forma, o espaço passa a ter condições de abrigar 240 expectadores confortavelmente.
Outros colaboradores participaram doando material de construção ou oferecendo-se como voluntários na obra. Uma destas pessoas é o artista plástico Rafael Sangrador, o qual acentua possuir “profundos conhecimentos em arquitetura”. Por conta disto, ele foi convidado a coordenar o projeto arquitetônico e paisagístico da nova capela.
Conforme o ex-presidente, o projeto apresentado por Sangrador passou por diversas análises antes de ser executado. O primeiro a avaliar foi o padre Milton de Campos Rocha. Com a aprovação dele, o projeto ficou disponível ao público, nas missas. Por fim, passou pela diretoria e recebeu a aprovação definitiva. “Aprovamos de forma unânime, desde que não usasse recursos do asilo”, acrescentou o presidente da época.
Atualmente, Sangrador ainda encarrega-se dos acabamentos da capela, junto com arquitetos que o auxiliam. De acordo com ele, o primeiro detalhe observado ao iniciar o projeto foram as determinações da Igreja Católica para a construção de espaços religiosos. “Existem regras de culto ditadas pela igreja, obedecendo aos atos tradicionais da missa e demais elementos da religião”, explicou.
Por ser católico, o artista plástico já participou da elaboração de projetos para várias outras igrejas. No caso da nova capela do asilo, procurou explorar e dar destaque à luminosidade. Boa parte das paredes é feita com vitrais, os quais, posteriormente, receberão pinturas em cores. O efeito provoca ganho de luminosidade pouco comum nas igrejas mais antigas.
“Normalmente, por segurança, as capelas são fechadas. Mas, aqui, nós estamos em um ambiente aberto, com muitos espaços na parte externa”, afirmou Sangrador. Com a transparência de parte das paredes, o espaço permitirá que expectadores acompanhem as missas na parte externa. “Nas outras capelas, quando ficam cheias, quem está do lado de fora não participa”.
Conforme o responsável pelo projeto, o uso de painéis de vidro no lugar de tijolos e cimento também contribuiu para reduzir os custos da obra. Além disto, com mais luz natural no interior da capela, há a previsão de que o consumo de energia elétrica seja menor. “Estou seguro de que, em noites de lua cheia, poderemos enxergar perfeitamente dentro da capela sem acender lâmpadas”, afirmou.
Entretanto, o principal benefício dos vidros, na avaliação dele, está no conforto que a luminosidade proporcionará aos usuários. Pessoas com alguma limitação visual poderão ter mais facilidade em acompanhar as missas. A preocupação ganhou importância pelo fato de que a maioria dos idosos assistidos pelo Lar frequentará a capela.
“Este lugar foi essencialmente pensado para quem tem deficiência de alguma forma. A idade não é uma deficiência, porém, pode começar a causar algumas. Por isso, procurei observar estas questões, para que tivesse acessibilidade, boas condições acústicas, facilidade para enxergar e para que as pessoas pudessem andar por onde for necessário”, explicou o artista plástico.
Os bancos e demais elementos da igreja estão afastados a uma distância que permitem a passagem de cadeirantes e pessoas que caminham com apoio de equipamentos. Além disto, todos as entradas possuem rampas de acesso, e, no futuro, deverão ser instalados corrimões.
O espaço destinado ao coral, normalmente posicionado na entrada da igreja, fica junto ao altar. “Não será necessário ficar se virando para ver os cantores”, comentou Sangrador.
Outra forma encontrada por ele para colaborar com a política de redução de gastos no projeto foi a reutilização de materiais da capela antiga. “Nas paredes, é possível perceber a situação mais importante na redução de custos. Todos os tijolos são da antiga capela, e aí nós tivemos um ganho substancial”, explicou.
O projeto básico escolhido para o imóvel eliminou a necessidade de estruturas metálicas. “As paredes são o que chamamos ‘autocortantes’. Não têm estruturas. A própria parede é a estrutura, e isso proporcionou economia de ferro”, disse.
Na parte superior, Sangrador propôs estruturas metálicas leves. “As estruturas ficaram aparentes para mostrar que são extremamente leves. Mesmo assim, elas têm resistência para o vento, e as pessoas podem subir para fazer manutenção”.
Segundo o artista plástico, a planta da igreja tem medidas que obedecem ao formato que corresponde ao “número áureo”. “O número áureo é muito respeitado nas catedrais góticas da França e da Espanha, foi considerado, sempre, um número de qualidade de proporção”, comentou.
O altar é delimitado por um arco horizontal. Conforme Sangrador, o objetivo da curva é produzir um efeito semelhante ao de um abraço a quem está nos bancos. De acordo com compromisso firmado com a direção do Lar, o artista se encarregará de fazer uma pintura na parte frontal do arco. O espaço, de aproximadamente 50 metros quadrados, terá como tema o patrono da instituição, São Vicente de Paulo.
Por sua vez, uma travessa com largura menor, localizada acima do arco, será pintada com algum tema bíblico. Segundo o artista, haverá um estudo antes do início dos trabalhos. Por trás da travessa, há uma passagem para a entrada de luz. No local, iluminado está fixado o crucifixo do altar.
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