No sábado, 26, completou-se um ano do fim da intervenção municipal na Santa Casa de Misericórdia. Desde então, a atual direção informa que contabiliza conquistas, ressaltando que o modelo de gestão continua sendo o mesmo adotado pelos interventores nomeados pela Prefeitura em outubro de 2008. Conforme os atuais gestores, o hospital ainda recebe auxílios do município, mas já opera e se mantém com receitas próprias.
Assim como as outras Santas Casas do país, o único hospital tatuiano é classificado como entidade filantrópica, com associados que contribuem mensalmente. De acordo com a direção, atualmente existem 300 associados, mas apenas 150 estão em dia com as obrigações sociais. Até a intervenção municipal, o quadro de associados era responsável por administrar a instituição, formando e elegendo chapas para a provedoria.
Para dirigir a Santa Casa durante o período de intervenção, a Prefeitura nomeou o farmacêutico Antonio Marcos de Abreu. O provedor permaneceu à frente do hospital até 26 de maio de 2011, quando foram convocadas novas eleições entre os associados. Abreu integrou a chapa eleita e empossada naquele dia, desta vez como vice-provedor e diretor administrativo.
“Ao final da intervenção, em conversas com os funcionários e até mesmo com o prefeito Luiz Gonzaga Vieira de Camargo, nós resolvemos montar uma chapa e disputar as eleições na Santa Casa, para dar continuidade ao trabalho que era feito”, explicou Abreu, que atualmente se encontra afastado das funções administrativas da Santa Casa.
Na nova gestão, a provedoria ficou a cargo de Naneti Walti de Lima. Ela é uma das fundadoras do Grev (Grupo de Estímulo à Vida), organização não governamental que atua com portadores de HIV no município.
“Quando fui convidada para concorrer ao cargo de provedora, achei que não tinha capacidade, porque a Santa Casa é uma entidade grande, com atendimento regional. Trabalhei sempre em ONGs bem menores. Mas eu já admirava o trabalho da provedoria, porque, como integrante do Grev, eu era usuária dos serviços da Santa Casa. Aceitei o convite porque vi que iria continuar a mesma equipe e a mesma linha de trabalho”, disse.
Ao tomar posse, no mesmo dia da eleição, a nova provedoria já não enfrentava situação tão complicada como no período da intervenção. Conforme a provedora, as circunstâncias que levaram à intervenção já haviam sido solucionadas. Entre elas, estava o fechamento da UTI (unidade de terapia intensiva), reaberta ainda em 2008, e problemas estruturais nos prédios da antiga maternidade, na cozinha, na lavanderia e na farmácia.
Além disto, a nova provedoria encontrou situação financeira mais segura em relação aos anos anteriores. De acordo com Abreu, dívidas trabalhistas e com fornecedores de água e energia elétrica ultrapassavam R$ 9 milhões. “Nós renegociamos estas dividas e, com novos parcelamentos, começamos a pagá-las”, afirmou o ex-provedor.
O interventor afirma que o déficit mensal nas contas da Santa Casa, em 2007, era de R$ 900 mil. Em 2010, segundo ele, a situação inverteu-se para superávit de 614 mil. Com dinheiro para fazer frente às dívidas, o setor financeiro da Santa Casa obteve CNDs (certidões negativas de débitos).
“Isso é o mais importante para uma entidade como a Santa Casa, pois é uma exigência para buscar emendas parlamentares e outros recursos externos”, explicou Abreu.
Estas informações fazem parte do relatório de gestão produzido pela provedoria depois do período de intervenção municipal. O documento foi apresentado na solenidade de posse da nova administração.
“A administração do interventor foi para reestruturar a Santa Casa, tanto do ponto de vista administrativo como técnico. Assim, voltamos a ter credibilidade no mercado, e, atualmente, temos facilidade para fazer compras”, explica o auxiliar administrativo Antonio Celso Fiúsa Júnior.
De acordo com Naneti, no primeiro ano da sua gestão, a situação financeira estável permitiu a realização de novos investimentos em melhorias. Ela destaca a reforma no edifício da farmácia, que estava com a estrutura comprometida e apresentava risco de desabamento.
A reforma teve o objetivo de manter as características arquitetônicas originais do prédio. “Tivemos que reforçar toda a estrutura. Isso foi um trabalho muito complexo e caro, pois exigiu a instalação de 14 estacas metálicas no solo”, afirmou a atual provedora. O novo suporte impediu que a estrutura do prédio continuasse a ceder. Agora, o trabalho é de acabamento.
Outras obras do primeiro ano destacadas pela provedora são a reforma da cozinha e do depósito de alimentos, a reforma da lavanderia e a construção de um prédio próprio para o arquivo do hospital. Atualmente, a instituição aluga um imóvel na rua São Bento e paga R$ 900 mensais para armazenar documentos.
A inauguração do novo prédio da maternidade da Santa Casa é citada como conquista importante, mas vista também como novo desafio. “Como ela é grande, muito maior que a antiga, quando ela começou a funcionar, aumentaram muito os gastos com água, energia elétrica, produtos de limpeza e serviços em geral”, explicou Fiúsa Júnior.
Paralelamente aos investimentos em infraestrutura, Naneti relata que houve preocupação na “humanização do atendimento”. De acordo com ela, este é um aspecto que tem melhorado bastante.
Ela lembra que a instituição obteve nota 9,2 na última avaliação feita pelo governo do Estado. “Muitos pacientes vêm debilitados, procurando carinho e afeto, e os funcionários têm que passar isso no atendimento dado a eles”, disse.
A busca por um atendimento humanizado incluiu treinamentos para os funcionários. “Trouxemos profissionais especializadas para fazer este treinamento. Atualmente, os funcionários estão tendo treinamento continuado nesta área”, afirmou. Segundo ela, nos dias 4 e 5 de julho, haverá novas especializações.
Entretanto, Naneti ressalta que apenas treinamentos não são suficientes para promover a humanização do atendimento. “Logicamente, você pagando os funcionários em dia, eles trabalham mais contentes, e isto ajuda bastante”. Por fim, ela cita a necessidade de oferecer condições adequadas ao trabalho dos profissionais da Saúde.
“O profissional precisa contar com os materiais e remédios, e os equipamentos devem estar esterilizados, conforme o necessário. Tudo isso ajuda para que os médicos e enfermeiros se sintam melhor para poder dar o melhor de si na Santa Casa. Como que você vai ser ‘humano’ se não tem nem o remédio para dar?”, questiona a provedora.
SAÚDE FINANCEIRA
Com o fim da intervenção, um dos principais objetivos anunciados pela nova provedoria era promover a independência financeira da Santa Casa em relação à Prefeitura. Conforme a direção, atualmente, o hospital “caminha com as próprias pernas”, mas continua mantendo “uma parceria importante” com o Executivo.
Isso porque, segundo Fiúsa Júnior, a Secretaria Municipal da Saúde é responsável pelo custeio da maior parte dos serviços de internação realizados pelo hospital. “O governo federal faz repasses ao Fundo Municipal de Saúde, que permite à Prefeitura comprar 460 internações mensais da Santa Casa. É um serviço que a Prefeitura tem que contratar, já que não possuiu hospital próprio”, explicou o auxiliar.
Por cada internação efetivada, independentemente do tempo de permanência ou da complexidade do caso, a Santa Casa recebe o valor de R$ 750. “O valor é o mesmo para alguém que fica um dia em um quarto ou 60 dias na UTI”, afirmou Naneti.
Para minimizar estas diferenças, a Prefeitura presta auxílio mensal de aproximadamente R$ 50 mil, o qual, segundo a direção, precisa ser empregado em gastos nos serviços de internações.
Outra contribuição importante dada pelo Executivo diz respeito ao pagamento de médicos especialistas que atuam no hospital e prestam auxílio no atendimento do Prono-Socorro Municipal “Erasmo Peixoto”.
Estes profissionais são pagos pelo Executivo. “Todas as especialidades médicas que ficam de plantão no pronto-socorro são contratados pela Santa Casa, mas são pagos com dinheiro da Prefeitura”, afirmou Fiúsa Júnior.
Por meio de convênio, há, ainda, cessão de funcionários da Prefeitura para a Santa Casa. Nele, estão incluídos os colaboradores do setor administrativo, como o próprio Fiúsa Júnior, e das áreas técnicas do hospital.
“Realmente, isso é uma contribuição muito valorosa”, comentou Naneti. Ela destaca que a Prefeitura também costuma ceder funcionários temporários, para o trabalho em pequenas obras da Santa Casa.
“Antes, durante e depois da intervenção, a Prefeitura sempre teve participação no orçamento da Santa Casa. Não tem como separar isso, já que a Prefeitura precisa ter um serviço de internações. Mas isto também não significa que toda vez que a Santa Casa precisar de um recurso extra, a Prefeitura vai dar. A Prefeitura possui uma dotação orçamentária que precisa seguir, e a Santa Casa trabalha com aquilo que ela arrecada”, argumenta a provedora.
Com as arrecadações disponíveis, a administração da Santa Casa precisa atuar em duas frentes: o custeio das despesas operacionais e o pagamento das parcelas renegociadas das dívidas. Fiúsa Júnior compara a Santa Casa a um pequeno município, e cita a cidade vizinha de Quadra como exemplo.
“O Orçamento do município de Quadra em 2011 ficou em torno de R$ 13 milhões. Já a movimentação financeira da Santa Casa ficou perto dos R$ 15 milhões. Os funcionários da Prefeitura de Quadra são aproximadamente 400. Aqui, temos 350. Ou seja, quase o mesmo que um município”, afirmou o auxiliar administrativo.
De acordo com ele, entre as maiores despesas atuais da Santa Casa está a folha de pagamento dos funcionários - superior a R$ 300 mil por mês -, os encargos trabalhistas, o material de consumo - como remédios e produtos de limpeza - e a manutenção dos equipamentos.
“Estamos comprando equipamentos novos, mas trata-se de um processo lento. Então, temos vários equipamentos que estragam com frequência, e não temos recursos suficientes para substituí-los por novos. Assim, temos que fazer a manutenção, e isso também é bastante caro”, explicou a provedora.
Ao lado destas despesas, estão os gastos com pagamento de dívidas atrasadas. “Se não pagarmos em dia todas as dívidas, perderemos as certidões negativas de débitos”, ressalta Naneti. Segundo o antigo provedor da Santa Casa, em três anos, o hospital quitou R$ 1,5 milhão em débitos atrasados. “É um dinheiro que poderia ter sido aplicado em investimentos dentro da Santa Casa”, comentou Abreu.
“Se não houvesse esse compromisso mensal com os credores, a Santa Casa, certamente, estaria em uma situação financeira muito mais sossegada”, acrescentou Fiúza Júnior. De acordo com ele, em algumas áreas, os gastos com dívidas são superiores às despesas correntes. “Para a Sabesp, pagamos cerca de R$ 22 mil em dívidas e em torno de R$ 18 mil em consumo”, informou. A previsão é de que as dívidas sejam totalmente quitadas em até dez anos.
Nesse período, a administração pretende fazer novos investimentos. Os próximos, com projetos já concluídos, devem ser a construção de um novo vestiário para os funcionários e a ampliação do refeitório. “Trata-se de uma reivindicação antiga dos colaboradores”, disse Naneti.
Depois, a provedoria pretende investir em novos serviços de atendimento, com aquisição de uma máquina de hemodiálise para a UTI e de uma UTI neonatal para a maternidade. “São os próximos desafios da administração”, comentou a provedora.
Ela vê o serviço de hemodiálise como uma das principais necessidades do momento. “Às vezes, temos na UTI pacientes que evoluem para um quadro de deficiência renal. Como não temos a aparelhagem, eles precisam ser transferidos para outra cidade”, informou. Se for viabilizado, o serviço não terá relação com o atendimento de hemodiálise em ambulatório, para os pacientes em geral.
Já a UTI neonatal depende de mudança de classificação do hospital junto ao governo do Estado. Para isto, a maternidade da Santa Casa precisa passar do atendimento de “média complexidade” para “alta complexidade”. A mudança é necessária para que o hospital receba pelos serviços prestados na futura UTI.
“Atualmente, já prestamos alguns serviços de alta complexidade. Quando há necessidade de transferir um recém-nascido para uma UTI e há demora em conseguir uma vaga em outra cidade, montamos uma estrutura que chamamos de unidade semi-intensiva. Mas trata-se de um serviço caro, e não recebemos por isso. Por enquanto, se a gente montasse uma UTI neonatal, não receberíamos pelos atendimentos”, explicou a provedora.
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