sábado, 3 de dezembro de 2011

Amart Cultural conclui Encontro de Artes Visuais com palestras



A Amart (Associação dos Artistas Plásticos de Tatuí e Região) Cultural realizou no sábado, 26 de novembro, uma série de palestras no Museu “Paulo Setúbal”. O evento, que contou com a participação de vários especialistas em artes, integrou as atividades do III TatuiArt – Encontro de Artes Visuais de Tatuí. Além das palestras, os espaços do museu também receberam exposições artísticas de participantes do encontro, iniciado em junho deste ano
O assunto em evidência na maioria das palestras, e também na sinopse de algumas das exposições, foi a discussão sobre o acesso do público ao mundo artístico. “Precisamos destas conversas, destes encontros, para que arte possa estar mais acessível ao povo”, comentou Raquel Fayad, diretora executiva da Amart.
De acordo com ela, o objetivo da associação para o TatuiArt de 2013 (o encontro acontece a cada dois anos) é ter maior integração com a população da cidade. “A cada edição a gente busca enriquecer um pouco mais um aspecto, e já estamos com projetos pensando em como envolver pessoas da cidade no próximo TatuiArt”, disse a diretora.
O artista plástico e educador Augusto Sampaio iniciou o ciclo de palestras falando sobre as oficinas de arte da ação educativa “Extramuros”, desenvolvida pela Pinacoteca do Estado de São Paulo. O programa de inclusão sociocultural é realizado com moradores de rua da região central de São Paulo. Os assistidos participam de oficinas semanais de arte e fazem visitas à Pinacoteca.
“Os resultados têm sido surpreendentes. Eles participam efetivamente das oficinas e começaram a se aproximar do museu e a visitar espontaneamente, sem os educadores das oficinas”, comentou Sampaio. As oficinas incluem trabalhos com técnicas de xilogravura, desenho e recortes de papel. O educador explica que utiliza materiais (caixas de madeira e jornais, principalmente) que são de fácil acesso aos participantes.
Conforme a previsão inicial, o projeto teria duração de três meses. “Eles (os participantes) foram mobilizados de uma maneira tal que nós estendemos o tempo para meio ano”, disse Sampaio. Atualmente, a ação educativa está no quarto ano, e há propostas para repeti-la em 2012. “Se você oferece oportunidade, você tem efetivamente uma participação inventiva do público com o museu”, concluiu o palestrante.
Em seguida, aconteceu a palestra “Vídeo-Arte – Um Outro Olhar”, com Lucila Meirelles. Ela realizou mostra audiovisual comentada da vídeo-arte e das vídeo-performances do artista plástico José Roberto Aguilar, com o qual foi casada e trabalhou na produção das peças artísticas.
Conforme a palestrante, a história dos primeiros anos da vídeo-arte no Brasil, na década de 70, é “um pouco obscura”. Ela contou que na época havia muitas dificuldades com os equipamentos de vídeo. “Não tinha ilha de edição. Era ligar a câmera e fazer acontecer. Nessa ‘geração audiovisual’ é fácil cortar e editar a produção. Mas fazer um trabalho contínuo e transformar isso numa obra conceitual era extremamente difícil”, comentou.
Na opinião de Lucila, os artistas da atualidade podem aproveitar os conceitos e métodos utilizados por Aguilar, ou seja, pensar em ideias simples e criativas. “Hoje em dia, as pessoas pensam de uma forma muito barroca, para produzir um vídeo ou uma arte. Às vezes, uma ideia bem elaborada e mínima pode vingar muito mais que algo complexo”, afirmou.
A palestra “Dilemas da Arte Contemporânea” foi apresentada pelo crítico, historiador e professor de arte Rodrigo Naves. Na apresentação, ele defendeu a realização de trabalhos para estimular a presença do povo nas exposições de artes plásticas. “Aqui em Tatuí vocês criaram uma tradição muito grande de música. Como se cria isso? Ouvindo música, treinando o ouvido. Infelizmente os brasileiros têm uma tradição fraquíssima em museus”, comentou Naves.
Durante a palestra, ele foi questionado por um dos espectadores se o problema estaria na falta de sensibilidade do grande público para apreciar as obras ou na falta de sensibilidade do artista para criar obras acessíveis a todos. O palestrante respondeu que a arte não é feita de compreensões conceituais, como a matemática, e que limites podem comprometer o trabalho do artista. “Se você fizer arte com regras, acabou-se a arte”, disse.
A respeito deste mesmo tema, a artista plástica Regina Carmona demonstrou preocupação. Na palestra “Resistências Artísticas Internacionais e Projetos Compartilhados”, ela fez críticas às “obras enclausuradas em museus”.
Para ela, é preciso colocar as obras de arte no caminho do cotidiano das pessoas. “O público não está indo aos museus, então temos que levar a arte até eles”. Entre os principais trabalhos artísticos de Regina estão exposições na passarela próxima ao Memorial da América Latina e no Parque do Ibirapuera. Neste ano, ela participou do Festival de Arte no Meio Ambiente, realizado na Finlândia.
“Deveria estar acontecendo um diálogo e uma proximidade maior entre o artista e o público, para que não tivesse tantas fronteiras e barreiras entre um e outro”, comentou a artista. De acordo com ela, esta proximidade traria ao público mais acesso e interesse pela arte. Já para o artista, haveria mais oportunidades para que o seu trabalho fosse visto. “O artista sofre na busca pelo reconhecimento”, afirmou Regina.
EXPOSIÇÕES
Junto com as palestras, a Amart inaugurou uma série de exposições artísticas no Museu “Paulo Setúbal”. Regina Carmona assina uma das obras, intitulada “Inscritos”. De acordo com a artista, a instalação retrata a vivência pessoal e artística dela e foi produzida a partir de um texto indiano sobre a relação do corpo com a essência divina.
“Produzi aquela obra partindo da imagem do corpo, mas a visão da obra e a projeção dela me deram todo o percurso de trabalho até hoje. Por isso, os pés representam uma caminhada”, explicou a artista.
A instalação “Natura – Hi Tech”, de Neil Milanesi, é outra obra exposta no museu. Confeccionada a partir de canos industriais fixados na fachada e numa das salas do prédio, a obra tem por objetivo provocar uma discussão renovada sobre o que é o museu. “A intervenção urbana quer que você passe a observar tudo de uma forma diferente”, disse o autor.
Ele destaca o contraste criado a partir do material utilizado – futurista – e do aspecto antigo da arquitetura do museu. “O que você já tem é uma coisa antiga e acrescentando algo contemporâneo causa choque e estranheza”, comentou Milanesi.
Além das obras de Regina e Milanesi, o Museu “Paulo Setúbal” apresenta a coleção “Desejo e Controle”, de Katia Salvany, o vídeo de performances “Work in Process”, de Gustavo Sol, e a exposição “Irmãos de Travessas Travessias”, com curadoria de Marcelo Tápia e Simone Homem de Mello. As atrações ficam expostas até o dia 1º de fevereiro (exceto a última, que ficará até 8 de janeiro). O museu está localizado na praça Manoel Guedes, 98, no centro, e está aberto de terça-feira a domingo, das 9h às 17h.

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